Sábado, 27 de novembro de 2021

Com arroto de boi como fonte de metano, agropecuária é chave para o Brasil reduzir emissões

A decisão do Brasil de aderir à iniciativa global para a redução de 30% nas emissões de metano, uma das principais causas do aquecimento do planeta, levanta a questão de como o país vai atuar para honrar seus compromissos.

Especialistas afirmam que, apesar de o Brasil já possuir tecnologia para reduzir emissões, há problemas substanciais no caminho que só serão superados com mudanças no rumo das políticas dos governos federal e estaduais, mais recursos e mudanças de comportamento, que serão essenciais para alcançar tal objetivo.

Embora exista em menores concentrações na atmosfera, o gás metano potencializa mais o aquecimento global: até 80 vezes mais do que o dióxido de carbono em um período de duas décadas. Desde o período pré-industrial, esse gás foi responsável pela elevação de 0,5ºC na temperatura do planeta, segundo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, divulgado em agosto.

Diferentemente da média global, em que essas emissões são uma mescla da agroindústria, do uso de combustíveis para geração de energia, do manejo de lixo e da queima de biomassa, no Brasil a agropecuária é, de longe, o maior emissor de metano. O setor é responsável por mais de 70% das emissões — no caso da pecuária, 97% delas são por fermentação entérica, ou o arroto do boi. Por isso, essa deve ser uma prioridade na hora de elaborar ações práticas.

“O Brasil tem 220 milhões de cabeças de gado”, apontou o climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). “O Brasil só vai conseguir reduzir as emissões através de uma mudança radical, disruptiva nas suas práticas pecuárias.”

Segundo Nobre, o ponto central do problema brasileiro é o modelo usado por parte considerável da indústria pecuária, em uma prática que descreve como “de baixíssima produtividade”, com pequena concentração de cabeças de gado em grandes propriedades. Para o climatologista, isso deixa de lado técnicas mais eficientes de produção que poderiam amenizar as emissões.

Eficiência 

Ele cita, por exemplo, o plano Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, elaborado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Esse plano estabelece meios para a otimização do uso da terra visando maior produtividade e menor impacto ambiental.

A iniciativa faz parte do chamado Plano Setorial de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária, ou Plano ABC, e de seu sucessor, o ABC+, voltado à implementação e ao financiamento de ações para reduzir as emissões no agronegócio. A meta atual, anunciada em meados de outubro, é aplicá-lo em 72 milhões de hectares de áreas produtivas até 2030.

“Se há um país que tem potencial para cortar as emissões de metano é o Brasil. Nossas emissões não vêm da queima de combustíveis fósseis, mas da produção agropecuária”, afirmou a engenheira agrícola Marina Piatto. “Temos uma tecnologia no setor agropecuário no Brasil, mas elas precisam estar disponíveis não só para poucos: precisamos ter um Plano Safra inteiro de baixo carbono.”

Ela ressalta que as novas tecnologias não são necessariamente medidas de alto custo. Ela pontua, por exemplo, que mudanças na alimentação do gado, com a inclusão de itens como grãos e, em caráter experimental, até de algas marinhas, que podem ajudar a reduzir drasticamente o nível de emissões.

Também contribuiria a concentração de mais animais em uma área reduzida, com um menor tempo até o abate. Por isso, não vê a redução no rebanho nacional como um caminho obrigatório.

Contudo, os especialistas são unânimes ao apontar a necessidade de uma mudança de rumo política dos governos federal e estadual para o país efetivamente cumprir seus objetivos para 2030.

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