Segunda-feira, 22 de abril de 2024

Combinação de juros básicos em 13,75% ao ano e recuo de bancos após rombo financeiro das Lojas Americanas deve impactar PIB do Brasil

Uma desaceleração intensa do mercado de crédito entrou no radar do mercado e pode representar prejuízos à atividade neste ano – e, no limite, levar a uma recessão. Embora não seja o cenário-base dos analistas, a expectativa de Selic, a taxa básica de juros, alta por mais tempo trouxe o risco à tona, em uma situação agravada pelo caso Americanas – cujo rombo fiscal leva a companhia a uma recuperação judicial – e após os principais bancos do País sinalizarem menor disposição para conceder empréstimos.

“Já temos uma projeção de economia praticamente parada este ano, (crescimento de) 0,7% para o PIB, com o agronegócio forte e o primeiro trimestre forte. Depois, economia parada. Se a disposição de conceder crédito diminui, pode impactar. Podemos ter dois trimestres negativos, seria uma recessão técnica”, diz a economista-chefe do banco Credit Suisse, Solange Srour.

A preocupação com o crédito neste ano, aliás, esteve entre os temas debatidos por economistas nas reuniões trimestrais com o Banco Central (BC) nesta semana. “Foi muito discutida a preocupação com Americanas, que um evento mais disruptivo no crédito poderia desencadear uma desaceleração muito forte da atividade”, relatou uma fonte.

Ano de “limpeza”

Na temporada de balanços do quarto trimestre, o Banco do Brasil, por exemplo, previu expansão entre 8% e 12% da carteira de empréstimos este ano, abaixo dos 17% do ano passado. E o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, disse que o banco vai aproveitar 2023 como um ano de “limpeza”, com empréstimos menos arriscados.

O analista de macroeconomia Michael Burt, da LCA, prevê uma desaceleração do crescimento do saldo de crédito livre a empresas a 7,0% em 2023, após alta de 9,9% em 2022. Ele alerta, no entanto, que o episódio da Americanas gerou incerteza no cenário e pode reduzir ainda mais a expansão no ano.

“Alguns bancos mostraram sinalizações de que isso vai reduzir o apetite para empréstimos, como, por exemplo, o Bradesco. Se isso se concretizar, esse 7,0% pode cair para algo em torno de 6,0% a 5,5%”, diz Burt, que vê nesse cenário adverso um risco para a obtenção de capital de giro para empresas, com impacto sobre a atividade.

Para a LCA, “eventual fracasso nesse esforço (de contornar uma crise de crédito) tenderia a deslocar a economia doméstica para uma trajetória claramente mais frustrante do que ora contemplamos em nosso cenário-base – algo superior a 1% (de crescimento) na média de 2023 e 2024”.

A analista Isabela Tavares, da Tendências, mantém no cenário-base uma queda real de 2,8% das concessões de crédito este ano, após crescimento de 10,4% em 2022, devido à expectativa de manutenção da taxa Selic em 13,75% até o terceiro trimestre. Essa premissa já está embutida na projeção da consultoria para o PIB de 2023, de avanço de 0,9%, mas Tavares alerta que há riscos de uma piora mais intensa no crédito, com impacto sobre a atividade.

“Temos uma perspectiva de que o custo do crédito para o tomador final tenha um recuo marginal de 0,4 ponto porcentual no fim de 2023 ante o fim de 2022, devido à queda da taxa Selic. Caso a taxa não caia, há risco de esses juros atingirem níveis mais altos e isso dificultar ainda mais a demanda e a oferta por crédito, além de aumentar a inadimplência. Tem o risco de um cenário pior”, explica.

“Soluço”

Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o caso das Americanas pode causar um “soluço” na disponibilidade de crédito, mas não deve afetar estruturalmente o mercado. “Estive com CEOs de bancos, e eles dizem que não afeta nem a distribuição de produtos nem a forma como veem o crédito”, disse, no programa Roda Viva.

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