Domingo, 05 de julho de 2026

Crise com Michelle é o capítulo mais recente de uma série de atritos provocados por Eduardo e outros aliados do senador Flávio Bolsonaro

A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher foi o estopim de uma crise que expõe a dificuldade de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para unir o bolsonarismo e tentar ocupar um espaço mais moderado na disputa presidencial. O episódio trouxe à tona atritos alimentados pelo que a ex-primeira-dama classificou como “grupo do exterior”, que tem no deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do senador, seu principal rosto político.

A atuação desse núcleo abriu frentes de conflito que vão da pressão por sanções impostas pelos Estados Unidos a desgastes envolvendo o Pix, declarações contra o voto feminino, embates com nomes da própria direita e movimentos em torno da escolha do vice na chapa.

Michelle tornou o conflito público ao divulgar um vídeo em que acusou Flávio de tê-la humilhado e de tentar excluí-la de decisões do partido. A ex-primeira-dama apontou uma atuação coordenada contra ela atribuída ao entorno bolsonarista instalado fora do País. Esse “grupo do exterior” inclui, além de Eduardo, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos, Alexandre Ramagem e Oswaldo Eustáquio.

Aliados ouvidos pelo Estadão afirmam que a articulação desse núcleo, muitas vezes sem alinhamento com a coordenação da pré-campanha de Flávio e com o próprio senador, dificulta a estratégia desenhada para 2026. Para essa ala mais pragmática, a campanha deixou de lidar apenas com ataques de adversários e passou a administrar ruídos produzidos pelo próprio campo bolsonarista.

A avaliação é de que esses episódios ampliam a exposição do presidenciável a temas de alta rejeição e o empurram de volta para a direita ideológica, justamente quando o senador tenta se apresentar como um nome mais moderado, dialogar com o centro e reduzir resistências em segmentos nos quais Jair Bolsonaro (PL) foi derrotado em 2022, como o público feminino.

Esse público é apontado por pesquisas como um dos principais desafios da campanha de Flávio e voltou ao centro da crise após Figueiredo afirmar que mulheres “votam muito mal”. Flávio disse “repudiar veementemente” a fala do aliado.

Para a deputada Bia Kicis (PL-DF), a reação de Flávio foi importante para deixar claro que a pré-campanha não endossa falas consideradas radicais, especialmente em um tema sensível como o voto feminino. “Ele fez questão de se posicionar pela gravidade do assunto. Como ele disse, não estava respondendo ao Paulo, estava respondendo às mulheres.”

A tentativa de isolar a fala de Figueiredo, porém, não encerra o desgaste com Michelle no bolsonarismo. Em uma live, Ramagem e Allan dos Santos, que já vinham cobrando uma participação mais ativa dela na pré-candidatura de Flávio, voltaram a questionar sua postura após a divulgação do vídeo. Oswaldo Eustáquio engrossou as críticas à ex-primeira-dama. Ramagem e Allan vivem nos Estados Unidos, enquanto Eustáquio está na Espanha. Os três são alvo de decisões judiciais no Brasil e considerados foragidos pela Justiça.

A crise em torno de Michelle, no entanto, é apenas o capítulo mais recente de uma sequência de desgastes provocados pela atuação do “grupo do exterior”. Em janeiro, Flávio já havia pedido a Eduardo que maneirasse nas críticas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Meses depois, o senador interveio após troca pública de críticas entre o irmão e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

No ano passado, Eduardo e Figueiredo defenderam as medidas do governo Donald Trump contra o Brasil em meio ao julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe. As medidas, citadas por Eduardo como forma de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF), foram exploradas pelo governo Lula sob o discurso de defesa da soberania nacional. Em junho, o governo dos EUA passou a avaliar a aplicação de nova tarifa sobre produtos brasileiros, desta vez com base em práticas comerciais do País, entre elas o Pix. Eduardo sugeriu que o Brasil usasse sistemas americanos “semelhantes ao Pix” – a declaração abriu mais uma frente de ruído para a pré-campanha do irmão.

A ala mais ideológica contesta a avaliação de que sua atuação atrapalha Flávio e cita como exemplo positivo a agenda do senador em Washington. No fim de maio, ele se reuniu com Trump. Na sequência, o governo americano anunciou a classificação de facções brasileiras como grupos terroristas.

Na avaliação dessa ala, o episódio ajudou a deslocar o foco de crises que vinham atingindo Flávio, incluindo questionamentos sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Master, em torno do financiamento do filme Dark Horse. Ao mesmo tempo, teria rendido ganhos políticos ao senador na área de segurança pública.

Procurado, Figueiredo disse que a resposta estava em um programa que faz no YouTube no qual ele volta a dizer que mulheres votam mal e afirma que Flávio não perderá a eleição por isso. Eduardo não foi localizado para se manifestar. Com informações da Folha de S. Paulo.

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