Segunda-feira, 04 de maio de 2026

Decidir em meio ao excesso: o desafio cultural da revolução tecnológica

Você não está perdido. Só não percebeu de onde suas decisões estão vindo. Essa frase de Ismael Mello, que reflete sobre o impacto silencioso da tecnologia no comportamento humano, traduz bem o dilema contemporâneo: não é apenas o que decidimos, mas de onde essas decisões emergem. Vivemos em um tempo em que a revolução tecnológica redefine não só a economia, mas também a cultura.

O celular, antes ferramenta, tornou-se extensão da mente. Antes mesmo do café da manhã, milhões de brasileiros já estão expostos a comparações, estímulos e pressões que moldam suas escolhas. O problema não é falta de inteligência ou responsabilidade, mas excesso de influência.

Os relatórios recentes reforçam esse quadro. O Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central mostra que quase todos os adultos têm conta bancária, mas milhões permanecem inativos, vulneráveis ao superendividamento e à desinformação digital. O TIC Domicílios 2025 do Cetic.br revela que, embora a maioria dos lares esteja conectada, ainda há milhões de pessoas sem acesso ou sem habilidade para usar a internet. O IBGE confirma: 20,5 milhões de brasileiros continuam fora da rede. Ou seja, convivemos com dois extremos — os hiperconectados, expostos a estímulos incessantes, e os desconectados, privados de oportunidades básicas.

Essa dualidade cultural é decisiva para o futuro da cidadania financeira e energética. Como ativista da transição energética, vejo que a geração distribuída e as redes inteligentes dependem de consumidores conectados e conscientes. Sem internet, comunidades ficam excluídas da possibilidade de gerar sua própria energia, participar de mercados locais ou adotar tarifas dinâmicas. Mas, paradoxalmente, quem está conectado demais também enfrenta riscos: decisões tomadas sob pressão do ambiente, sem clareza interna, podem levar ao consumo excessivo, ao endividamento e à perda de autonomia.

O processo de decisão, portanto, tornou-se o verdadeiro campo de batalha cultural. Antes, as escolhas eram feitas com mais tempo e contexto. Hoje, são reações rápidas a estímulos digitais. Essa mudança afeta especialmente os mais velhos, que cresceram em um mundo de limites e agora enfrentam um cenário de excesso. Mas não se trata de incapacidade; trata-se de reorganizar o mapa mental em um ambiente onde tudo parece urgente.

O maior risco não é errar, mas decidir sem perceber de onde a decisão vem. Quando a referência interna enfraquece, até boas escolhas pesam. Isso vale para finanças, para energia e para a vida cotidiana. Comprar um produto desnecessário, aderir a um contrato desfavorável ou ignorar oportunidades de geração de energia elétrica distribuída podem ser consequências de decisões tomadas sob influência externa, não da própria realidade.

O Brasil precisa reconhecer que inclusão digital não é apenas infraestrutura, mas também educação cultural. É preciso ensinar não só a usar a internet, mas a decidir com consciência em meio ao excesso de estímulos. Sem isso, a cidadania financeira e energética será frágil.

A revolução tecnológica trouxe ganhos inegáveis, mas também um ruído de fundo que desorienta. O desafio agora é cultural: recuperar a clareza de onde nossas decisões vêm. Só assim poderemos construir uma sociedade capaz de usar a tecnologia para sustentar, e não para cobrar.

No fim, a transição energética e a cidadania financeira dependem de algo simples, mas profundo: decisões conscientes. E isso exige uma pausa, um olhar honesto para dentro, antes de seguir o próximo passo. Porque decidir melhor não é decidir mais rápido. É decidir a partir da própria vida, não apenas dos estímulos e do ambiente que nos cerca.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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