Terça-feira, 14 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 13 de abril de 2026

A abertura da temporada 2026 do Domingo Clássico Petrobras, realizada neste domingo (12/04), em Porto Alegre, vai além de um concerto inaugural. Ela expõe um dos raros casos de permanência cultural estruturada no Brasil: a Orquestra de Câmara da ULBRA, que chega a três décadas de atividade contínua sustentada por universidade, patrocínio privado e política pública de incentivo.
Em um cenário histórico de descontinuidade de projetos culturais, a longevidade da série se impõe como exceção e também como método. O maestro Tiago Flores resume essa lógica ao destacar a trajetória do projeto: “Esse é o Domingo Clássico, que este ano passou a se chamar Domingo Clássico Petrobras. A gente tem muito orgulho porque ele faz parte da cena cultural rio-grandense há 24 anos de forma ininterrupta”.
A constância, neste caso, não é apenas administrativa — é pedagógica. Ao longo de mais de duas décadas, o projeto construiu algo que a música de concerto no Brasil raramente consegue sustentar: público recorrente. “Mais do que concertos, a gente construiu uma relação com o público. Tem pessoas que acompanham a orquestra há anos. Isso é raro na música clássica no Brasil”, afirma Flores.
A temporada 2026 prevê nove concertos distribuídos ao longo do ano, sempre aos domingos, com repertório que atravessa Mozart, Bach, Grieg e Camargo Guarnieri. A curadoria reforça uma estratégia clara: combinar repertório universal com identidade brasileira, ampliando a escuta sem simplificar o conteúdo.
“Nosso trabalho não é só executar bem. É formar escuta. É fazer com que a pessoa volte no mês seguinte querendo ouvir mais”, diz o maestro, ao definir o núcleo do projeto não como performance, mas como formação continuada.
A Orquestra de Câmara da ULBRA, criada em 1996, consolidou-se como uma das formações mais estáveis do país no segmento de música de concerto, realizando cerca de 30 apresentações por ano e alcançando um público estimado em 20 mil pessoas por temporada. Essa permanência, no entanto, depende de uma engenharia institucional específica.
O modelo do Domingo Clássico Petrobras é sustentado pela Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras e realização da ULBRA. Trata-se de um sistema em que parte do imposto devido por empresas e pessoas físicas é direcionado a projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. Na prática, o mecanismo transforma tributação em investimento cultural de longo prazo.
Flores é direto ao apontar a importância dessa estrutura: “Cultura não se faz com evento isolado. Se faz com sequência”. A frase sintetiza um dos principais dilemas do setor cultural brasileiro: a dificuldade de transformar iniciativas pontuais em políticas contínuas.
A estrutura da orquestra também reflete essa lógica de adaptação permanente. O grupo varia de formações menores, com cerca de 18 músicos de cordas, até cerca de 30 integrantes quando o repertório exige sopros e obras sinfônicas. “O repertório é que define a orquestra”, explica Flores, ao destacar a flexibilidade como parte do processo artístico.
Mais do que uma série de concertos, o Domingo Clássico opera como um sistema de formação de público em escala regional. Sua importância não está apenas na execução musical, mas na criação de um hábito cultural contínuo — algo raro em um país onde a fruição da música erudita ainda é concentrada e episódica.
Ao completar três décadas, a Orquestra da ULBRA deixa de ser apenas um grupo artístico e passa a ocupar outro lugar: o de instituição cultural estável, capaz de sustentar repertório, público e continuidade. Nesse sentido, o que se celebra na abertura da temporada não é apenas o início de um calendário, mas a confirmação de um modelo.
No fim, o Domingo Clássico Petrobras revela uma ideia simples e difícil de sustentar: cultura não é evento. É permanência construída no tempo.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)