Domingo, 26 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de julho de 2026
A composição do eleitorado para a disputa de 2026 adicionou uma dose extra de relevância ao debate sobre voto feminino, que registrou padrão diferente do masculino nas últimas duas eleições. Crescente a cada ano, a distância entre o número de mulheres e homens aptos a votar chegou a 9,1 milhões de pessoas. A maioria feminina favorece, em tese, o presidente Lula (PT), que apresenta bons números no segmento, e desafia candidatos como Flávio Bolsonaro, que vem acenando ao segmento.
O aumento percentual das mulheres no eleitorado, fruto das mudanças demográficas do país, é chamativo sobretudo quando se analisa a série histórica do TSE. Em 2010, eram 5,1 milhões a mais na comparação com os homens. De lá para cá, portanto, a diferença quase dobrou. As eleitoras representam hoje 52,8% do total.
Até a ascensão de Jair Bolsonaro, em 2018, havia uma diferenciação menor entre os votos dos diferentes sexos nas eleições presidenciais. Como mostra o cientista político Jairo Nicolau no recém-lançado “O país dividido” (Zahar), o PT teve amplo domínio nos dois gêneros entre 2002 e 2014.
A reconfiguração foi nítida há oito anos. Entre o eleitorado feminino, o resultado registrou praticamente empate, com pequena vantagem para o presidente eleito. Já quando se consideram os votos masculinos, a vitória se deu de forma bem expressiva, com dois em cada três optando por Bolsonaro.
Quatro anos depois, Bolsonaro despencou nos dois sexos, mas, como carregava uma vantagem superlativa entre os homens, continuou à frente no segmento. As mulheres, contudo, fizeram com que Lula vencesse a disputa.
Debate moral
Mas, afinal, o que motiva a discrepância? Segundo Andressa Rovani, pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) e doutoranda da Unicamp, a candidatura de Bolsonaro em 2018 trouxe ao debate político temas de cunho moral que antes não protagonizavam as eleições.
— O discurso do Bolsonaro provoca uma reação muito clara no eleitorado feminino. Antes disso, existia uma diferença menor entre os votos de homens e mulheres — aponta. — Isso se dá muito via rejeição ao Bolsonaro. Em 2022, se dependesse só das mulheres, Lula teria sido eleito no primeiro turno.
Dados compilados pela pesquisadora mostram que a entrada de Bolsonaro no jogo político brasileiro fez as curvas de homens e mulheres se afastarem. Entre 2002 e 2010, o PT era até mais votado proporcionalmente por eles do que por elas, com maioria significativa em ambos. Depois de empate técnico em 2014, as mulheres passaram a ser mais relevantes para os sufrágios do partido nas últimas duas disputas, contra Bolsonaro.
Os números são do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), pesquisa vinculada ao Cesop feita após as eleições e que é referência para esse tipo de análise. Em 2018 e 2022, Fernando Haddad e Lula, respectivamente, tiveram cerca de dez pontos percentuais a mais no eleitorado feminino do que no masculino no segundo turno, a despeito de um ter perdido a eleição e o outro ter vencido.
Jairo Nicolau observa no livro que pesquisas qualitativas feitas em 2018 mostraram que o perfil de Bolsonaro de “liderança corajosa” foi central para que homens jovens abraçassem o capitão do Exército. Contribuiu para isso o histórico político do então deputado, muito calcado em pautas de segurança pública e das Forças Armadas.
Segundo a última sondagem Genial/Quaest, deste mês, 50% das mulheres aprovam o governo Lula, e 44% desaprovam. Entre os homens, ocorre o inverso: 50% rechaçam a gestão, e 46% a consideram positiva.
No levantamento do Datafolha de junho, o petista marca 44% contra 26% de Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno, quando são consideradas apenas as eleitoras. Já os homens registram empate, com 37% para cada.
Flávio enfrentou a crise com a madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que fez um vídeo de desabafo sobre a relação difícil com o enteado. Depois, um dos aliados do clã, Paulo Figueiredo, alegou que as mulheres “votam mal” e intensificou os problemas da campanha.
Um dos antídotos do presidenciável do PL para tentar correr atrás do prejuízo passa pelo próprio núcleo duro familiar. Ele passou a envolver mais a esposa, Fernanda, na estratégia de campanha, além de se vangloriar de ser “pai de menina”.
Na última quinta-feira, Flávio também fez um pedido de desculpas à madrasta. Em vídeo, “renovou o convite” para que caminhassem juntos na eleição. Com informações do portal O Globo.