Sábado, 22 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 22 de agosto de 2026
Argentina e Brasil mantêm uma relação bilateral vital em comércio, investimento, segurança, energia, infraestrutura e cooperação nuclear. Juntos, representam uma base fundamental para a paz e a prosperidade na América do Sul. Embora historicamente marcada por rivalidades geopolíticas, a Argentina foi a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil, em 1822. Desde o final da década de 1980, as relações consolidaram-se como fraternas e cooperativas. Hoje, os dois países formam o eixo central do Mercosul, respondendo por 63% do território, 61% do PIB e 60% da população sulamericana.
Apesar da relevância estratégica, a convivência política enfrenta turbulências em razão das profundas divergências ideológicas entre os atuais mandatários. O presidente argentino, Javier Milei, adotou medidas radicais de extrema direita para conter a crise econômica do país, demonstrando forte inconformismo com o governo brasileiro de centro-esquerda. Seus ataques verbais recorrentes contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tensionaram os laços diplomáticos a um nível sem precedentes, levando o Brasil a convocar seu embaixador em Buenos Aires para esclarecimentos. Há indícios de que essa atitude agressiva busque influenciar o cenário político brasileiro externo.
Apesar dos atritos na governança estatal, que se caracteriza pela volatilidade cíclica das eleições, o diálogo técnico e a colaboração contínua permanecem essenciais. Na economia política, investidores e empresários têm horizontes de tempo mais longos e permanentes do que a classe política, detendo a capacidade de moldar a estabilidade econômica regional. O setor privado e as instituições de ambos os países devem desempenhar um papel crucial no alinhamento de interesses e na blindagem de políticas de Estado diante de crises ideológicas passageiras. O Brasil tem interesse direto no sucesso da estabilização e da abertura comercial argentina.
Diante do protecionismo global, como as tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, a união regional torna-se indispensável. O Mercosul demonstra força para superar obstáculos, incluindo resistências ao acordo com a União Europeia, e atrai o interesse comercial de novos parceiros como Canadá, Coreia do Sul, Japão e Emirados Árabes. Essa conjuntura oferece uma oportunidade única para mitigar disputas de cunho pessoal, diversificar mercados externos e consolidar o bloco econômico como uma força global duradoura.
*Por Roberto Teixeira da Costa, conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal)