Segunda-feira, 06 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 5 de julho de 2026
No centro das suspeitas envolvendo a relação do senador Jaques Wagner (PT-BA) com o banqueiro Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador tem por trás uma empresa administrada por um ex-metalúrgico que era dono de oficinas mecânicas em São Paulo. A Polícia Federal (PF) aponta que o imóvel foi destinado como “vantagem indevida” ao parlamentar em troca de atuação política no Congresso.
As suspeitas envolvendo o imóvel recaem sobre a Epitome S.A, consultoria de gestão empresarial responsável pela transação imobiliária, que não chegou a ser concluída. A empresa tem como representante Luiz Antônio Lombardi, que, em um período de cinco anos, deixou de administrar oficinas mecânicas na zona norte da capital paulista para se tornar executivo de empresas com capital social que somam R$ 56 milhões.
A PF aponta Lombardi como “pessoa interposta” ou “titular aparente” no negócio, ou seja, alguém que atuava para esconder o verdadeiro dono. O ex-metalúrgico é amigo de infância do advogado Daniel Monteiro, indicado nas investigações como “operador técnico e estrutural” do escândalo do Master e encarregado de arquitetar a ocultação patrimonial de negócios envolvendo o banco.
Em entrevistas, Wagner admitiu que pediu a Lima para comprar o apartamento, ainda em construção, e o plano era dá-lo à sua filha, mas disse que não houve contrapartida política. A defesa do parlamentar disse que “não fará novas manifestações sobre temas que envolvam este procedimento”.
Já a defesa de Lima afirma que “ele jamais adquiriu o imóvel mencionado e não possui participação nas empresas apontadas como supostas compradoras na negociação”. “A investigação também não demonstra qualquer atuação funcional por parte do senador Jaques Wagner em benefício de Augusto Lima ou do Banco Master, requisito indispensável para a configuração dos crimes investigados”, diz, em nota.
Mensagem interceptada pela PF mostra o interesse de Wagner no imóvel. “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”, escreveu o senador a Lima. Com 245,3 m² de área privativa, o apartamento tem quatro suítes e fica em um condomínio com características de alto padrão, como quadra de tênis, espaços para animais de estimação e guaritas blindadas.
Conforme a PF, Lima acionou um funcionário para tratar das burocracias relativas ao empreendimento. O trabalho, segundo as apurações, foi feito com auxílio de Monteiro, que atuava como advogado do Master e controla um fundo acionista da Epitome.
Antes de negociar o imóvel em Salvador, a Epitome recebeu R$ 2,5 milhões do fundo Hockenheim, que, por sua vez, tem como cotista outro fundo, o Le Mans, controlado por Monteiro.
Procurada, a defesa de Monteiro confirmou que nomeou Lombardi para trabalhar numa rede de empresas, incluindo a Epitome, porque ele é um “amigo de longa data e irrestrita confiança”. Questionado sobre o negócio envolvendo o apartamento, o ex-metalúrgico afirmou não ser dono da firma, “tendo tão somente administrado referida empresa”.
“A despeito de ter crescido em um ambiente humilde, Luiz sempre pautou sua trajetória pelo trabalho e dedicação profissional. Atuou por muitos anos junto a empresas do setor da indústria metalúrgica, bem como, mais recentemente, efetivamente exerceu a gestão das empresas a que esteve vinculado”, diz o texto.
A relação entre Monteiro e Lombardi, contudo, vai além da amizade. A carreira empresarial do ex-metalúrgico teve uma guinada nos últimos anos, quando foi indicado para atuar como diretor de empresas criadas entre 2021 e 2024 ligadas ao advogado— os dois cresceram juntos na Zona Norte de São Paulo.
Após passar anos trabalhando na indústria metalúrgica, em 2015 iniciou a carreira de empreendedor ao abrir uma oficina, com capital social de R$ 50 mil, que transformava veículos em trailers de foodtruck. Em 2021, o negócio não ia bem, e ele resolveu abrir uma mecânica que adaptava carros comuns para disputar corridas em autódromos, os chamados “Trackday”. Com informações do portal O Globo.