Domingo, 06 de setembro de 2026

Estudo com brasileiro à frente faz homem sobreviver com rim de porco por 271 dias e aponta novo caminho para os transplantes

Um paciente em estágio terminal de doença renal sobreviveu mais de 271 dias com um rim de porco sem precisar de diálise – um tempo recorde. O caso faz parte da pesquisa do brasileiro Leonardo Riella, professor na Harvard Medical School, e coloca a humanidade mais perto de sobreviver com órgãos de animais. Para especialistas, esse é um caminho de esperança para as milhares de pessoas na fila por um transplante.

Leonardo e sua equipe conseguiram que um paciente terminal de insuficiência renal voltasse a ter uma vida normal por nove meses. Antes do procedimento, ele dependia de sessões frequentes de diálise, andava de cadeira de rodas e enfrentava diversas restrições no dia a dia.

Há décadas, médicos e pesquisadores tentam fazer funcionar o transplante de animais em humanos. A técnica é vista como uma possível solução à escassez de doadores, que deixa milhares de pessoas à espera e submetidas a uma realidade que rouba a qualidade de vida.

Para se ter uma dimensão do problema, o transplante renal é um dos mais realizados no país. Isso porque de um doador falecido, por exemplo, é possível atender dois pacientes. Além da possibilidade entre pacientes vivos. Ainda assim, hoje, 45 mil pessoas estão na fila, segundo dados do Ministério da Saúde.

Para especialistas, a pesquisa marca um dos passos mais revolucionários já dados nessa direção. O avanço se deve, em grande parte, à edição genética do porco doador: modificações que eliminam os principais alvos de rejeição do corpo humano e reduzem drasticamente a chance de o organismo atacar o órgão transplantado.

De acordo com Riella, a expectativa é de que o xenotransplante seja uma realidade para pacientes nos próximos cinco anos, como ponte para o transplante humano. A ideia do médico e pesquisador é que seja um processo por etapas, com a ambição, a longo prazo, de que o paciente não precise mais de um transplante humano.

Feito inédito

Tim Andrews, 66 anos, gostava de acampar antes de descobrir a doença renal. Em um ano e meio de diálise, o quadro debilitou tanto o paciente que ele passou a se locomover de cadeira de rodas – uma realidade completamente oposta à vida ativa que tinha antes da doença.

Com esse quadro, ele se tornou candidato ao xenotransplante e recebeu o órgão de porco em janeiro de 2025.

“Pouco tempo depois da cirurgia, ele já tinha uma vida normal. Ele voltou ao acampamento, cortava madeira, carregava peso, comia o que queria, não precisava de diálise. Era uma outra vida”, conta o médico.

Antes dele, um paciente da equipe de Riella também havia passado pelo xenotransplante, em 2024, mas sobreviveu apenas 52 dias — morreu por condições cardíacas sem relação com o procedimento. Até então, nenhum paciente havia sobrevivido mais de dois meses com um rim de origem animal no corpo.

Tim rompeu essa barreira: foram 271 dias com o rim de porco, que precisou ser retirado depois de uma reação do sistema imunológico, um dos maiores desafios dos transplantes. Riella explica que o paciente teve uma infecção bacteriana, o que levou à necessidade de reduzir os medicamentos imunossupressores — responsáveis por impedir que o corpo rejeite o órgão transplantado. Com a imunossupressão mais baixa, o organismo passou a atacar o rim suíno, até que ele precisou ser removido.

Oitenta e dois dias depois, Tim recebeu um transplante de rim humano, que segue funcionando sem sinais de rejeição.

Saiba mais

O rim usado no caso de Tim não é de um porco comum, mas de um animal feito especificamente para esses casos e geneticamente modificado.

A primeira mudança mira no maior obstáculo do xenotransplante: a rejeição hiperaguda, reação imediata e violenta do corpo humano contra o tecido do porco. Ela acontece porque as células suínas têm, na superfície, moléculas de açúcar que funcionam como uma espécie de identidade estranha — um sinal que o sistema imunológico humano reconhece na hora e ataca

Em laboratório, antes que os animais nasçam, os cientistas eliminaram os genes responsáveis por essas moléculas. Assim, eles nascem com esse defeito, o que reduz drasticamente a chance desse ataque acontecer.

A segunda modificação lida com um risco diferente: o DNA dos porcos carrega, naturalmente, fragmentos de vírus. Eles normalmente ficam inativos, mas existia a preocupação de que pudessem se reativar dentro do corpo humano e causar infecção. Por isso, esses vírus também foram desativados.

Por fim, os cientistas inseriram sete genes humanos no material genético do porco. A lógica é parecida com trocar peças específicas de uma engrenagem para que ela se encaixe melhor em outro mecanismo: esses genes fazem com que o órgão produza proteínas mais parecidas com as humanas, o que ajuda o corpo do paciente a reconhecer o rim como menos estranho. (As informações são do g1)

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