Segunda-feira, 27 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de abril de 2026
As recentes prisões dos funkeiros Ryan SP e Poze do Rodo pela operação “Narco Fluxo” evidenciaram mais um esquema envolvendo uso de criptomoedas para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita. O dinheiro em espécie abriu espaço para ativos digitais como o blockchain, apontado por especialistas como um “labirinto” para o crime organizado.
Ao lado da ofensiva “Carbono Oculto”, que desarticulou esquema bilionário de sonegação e lavagem de dinheiro com ramificações na chamada “Faria Lima” (centro financeiro de São Paulo) e de ao menos outras duas grandes ações nos últimos meses, os casos mostram um padrão consolidado.
Segundo as investigações da Narco Fluxo, os cantores participaram da movimentação de cerca de R$ 1,6 bilhão por meio de exchanges (plataformas que funcionam como corretoras) e fintechs (empresas digitais de serviços financeiros), parte delas já na mira da Polícia Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Hoje, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já figuram em investigações que apontam o uso de plataformas digitais para converter, fragmentar e transferir recursos para fora do país.
O atrativo das criptomoedas para esse tipo de operação não é coincidência e passa pela arquitetura dessa tecnologia. Para Carlos Henrique, presidente-executivo da Sttart Pay, a combinação de fatores estruturais é o que torna esses ativos tão eficientes para quem quer movimentar dinheiro sem deixar rastros imediatos.
A liquidação quase instantânea das transações e a operação ininterrupta reduzem o tempo de exposição e dificultam a atuação reativa dos controles tradicionais. Isso, somado à ausência de identificação direta do usuário em muitas ocasiões, “altera a dinâmica de custo e risco das operações”, avalia o especialista. Carteiras de criptomoedas não carregam quaisquer informações sobre o seu dono, tais como nome, RG e CPF.
O artifício mais comum é o fracionamento: grandes quantias são divididas em pequenas transações em diferentes carteiras digitais para escapar dos sistemas de alerta. Também são usadas contas de laranjas, empresas de fachada e, em casos mais sofisticados, empréstimos fraudulentos em fintechs. “O desafio do regulador está em mitigar riscos sem eliminar benefícios econômicos relevantes”, avalia o executivo.
Quem é o dono do endereço
Para Nicole Dyskant, fundadora da RegDoor, plataforma de inteligência regulatória de ativos digitais, o blockchain tem uma característica que o diferencia até de instrumentos tradicionais de lavagem de dinheiro, como imóveis e obras de arte: a imutabilidade dos registros: “A dificuldade está em saber quem é o dono daquele endereço, não em rastrear o dinheiro em si”.
São outras características das criptomoedas que tornam elas atraentes para a lavagem de dinheiro. A principal delas é a capacidade de criar um labirinto digital que dificulta o monitoramento das transações. Cada indivíduo pode ter um número ilimitado de carteiras virtuais, que podem realizar operações sem a intermediação de autoridades do sistema financeiro.
Restrições contra irregularidades
Em fevereiro, entraram em vigor as novas regras do Banco Central para prestadores de serviços de ativos virtuais, exigindo autorização formal, capital mínimo entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, identificação rigorosa de clientes e reporte de operações suspeitas ao Coaf.
Além disso, negociações passaram a ser tratadas como equivalentes a câmbio, obrigando as plataformas a informar essas movimentações ao BC. Transações internacionais acima de US$ 100 mil também foram limitadas a instituições autorizadas.
A Receita Federal está ampliando o controle para “fechar as portas” do sistema financeiro para o crime organizado. Desde novembro, o órgão está de olho nas bets ilegais e no uso de criptomoedas para movimentar dinheiro com origem ilícita. (com informações do jornal Extra)