Sábado, 25 de julho de 2026

Filme “A Odisseia” reacende obsessão por fidelidade histórica

Bastou o primeiro trailer de “A Odisseia” ser lançado para choverem críticas severas sobre o filme nas redes sociais. Alguns disseram que a linguagem soava coloquial demais, o que transformou em meme a cena em que Telêmaco, vivido pelo ator Tom Holland, se refere a Odisseu, seu pai, como “dad”. Outros reclamaram da escolha do elenco – uma discussão sobre “racebanding” (a alteração da etnia de um personagem), que logo descambou para argumentos racistas e transfóbicos. Implicaram com as armaduras, consideradas modernas demais. Atena teve seu traje criticado, como se a deusa fosse uma blogueira de moda malvestida. Houve até quem reclamasse que não havia nenhum ator grego no elenco. Dos troianos, ninguém se lembrou.

Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e um elenco estelar, o novo filme do diretor Christopher Nolan, retoma uma questão que paira sobre as críticas de internet, sejam elas bem fundamentadas ou não. Afinal, até que ponto uma adaptação cinematográfica deve ser fiel à obra literária, ou ao fato histórico em que se baseia, para ser considerada fidedigna?

“A ‘Odisseia’ sobreviveu por 2,5 mil anos sem desaparecer em nenhum momento, mas não sem alterações. Sempre houve pessoas interessadas em interpretar o texto e lidar com ele em contextos que não eram os originais”, diz Henrique Caldeira, doutor em história pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e criador do canal Estranha História. “Essas discussões mostram que se perdeu de vista que a obra sempre foi reinterpretada ao longo do tempo. Quando foi que ficamos tão obcecados pela historicidade perfeita?”

Mais do que uma mera questão de escolha estética ou artística, encontrar novas formas de ler um texto antigo é condição para manter sua relevância ao longo do tempo, já que o público para o qual ele foi originalmente escrito não existe mais, nem o contexto histórico em que foi gerado. Quando se fala da beleza indescritível de Helena, por exemplo, a referência do leitor – ou do artista, no caso de um pintor ou escultor – é sua própria noção do que é belo, não a de Homero, argumenta Caldeira.

Nem se tem certeza de que Homero realmente existiu. Para parte dos historiadores, ele não era um indivíduo, mas uma escola de pensamento. O mesmo ocorre com a Guerra de Troia. O mais provável, concordam arqueólogos, é que se trate de uma narrativa mitológica inspirada em um núcleo de conflitos reais ocorridos na Idade do Bronze, mas sem a magnitude descrita no poema.

O que se sabe com certeza é que não foi Homero quem criou as histórias do poema. Elas já eram conhecidas e estavam vivas na cultura grega da época. O autor era na verdade um aedo, um artista que compunha e cantava suas próprias poesias. “Vamos dizer que ele não receberia o Oscar de melhor roteiro, talvez o de roteiro adaptado”, brinca Caldeira.

Alguns dos episódios mais famosos popularmente atribuídos à obra não fazem parte dela. É o caso do cavalo de Troia. Tanto a “Odisseia” – que narra a volta de Odisseu (ou Ulisses) ao seu lar em Ítaca -, como a “Ilíada”, que é cronologicamente anterior e relata a vitória grega sobre os adversários troianos, fazem apenas referências breves ao caso. Os detalhes aparecem na “Eneida”, de Virgílio, que foi escrita muitos séculos depois, entre os anos 29 a.C. e 19 a.C., no período de dominação romana.

“Homero não precisava falar com muita clareza porque sua audiência não se sentava para ser surpreendida. Na ‘Ilíada’, ele trata Aquiles como ‘o pelida’ – o filho de Peleu -, e não explica isso porque as pessoas já sabiam”, diz o historiador. “Já na ‘Eneida’, Virgílio faz descrições detalhadas, uma vez que as histórias não eram mais tão vívidas.”

Mesmo a percepção sobre a relevância da ‘Odisseia’ variou com o tempo. Hoje considerado uma peça de erudição, o poema já teve sua leitura desaconselhada. Nos diálogos de Platão, o filósofo credita a Sócrates – seu mestre, que não deixou nada escrito – a convicção de que a obra não era adequada à formação do cidadão perfeito porque tratava os deuses gregos como humanos demais e trazia uma profusão de seres fantásticos, incluindo sereias, feiticeiras, ciclopes e gigantes canibais.

Hoje, curiosamente, faz falta deixar de lado esses elementos ao recontar a epopeia de Odisseu, como ocorreu com o filme “Troia” (2004), opina Caldeira. A narrativa mitológica, com os deuses do Olimpo agindo nos bastidores, ajuda a explicar as motivações humanas e faz o enredo fluir. Em “A Odisseia”, esses elementos estão presentes, com personagens como o ciclope Polifemo, os lestrigões, a feiticeira Circe e a ninfa Calipso. “É importante preservar o fantástico”, diz o historiador. “Tratar uma narrativa mitológica sem esses elementos seria como fazer um filme bíblico sem Deus.” (Com informações do Valor Econômico)

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