Segunda-feira, 03 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro relembra o pai e aposta em lives com leitura de manchetes e elementos estéticos associados ao ex-presidente

Nas últimas três semanas, Flávio Bolsonaro (PL) tem reforçado sua identidade como herdeiro político do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, emulando signos presentes na estética e no discurso do ex-presidente, que o ungiu como seu sucessor.

A estratégia se intensifica em um contexto de isolamento, diante das dificuldades em atrair partidos do centrão para seu arco de alianças e da série de notícias negativas que atingiram a pré-campanha, como os laços com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o atrito público com a madrasta Michelle Bolsonaro (PL).

Em transmissão ao vivo no último dia 23, Flávio reproduziu explicitamente uma característica marcante das lives do pai ao ler manchetes de jornal. “Vou fazer como o presidente Bolsonaro fazia, aqui, e mostrar algumas matérias para vocês, absurdas. Eu tenho que atrair alguns assuntos aqui, porque na grande mídia você não ouve”, disse.

Na ocasião, o senador voltou a prometer que, se eleito, subirá a rampa do Palácio do Planalto ao lado de Bolsonaro, que entregará a ele a faixa presidencial.

Um integrante da pré-campanha diz, sob reserva, que Bolsonaro é um ponto forte, que ele está na raiz da candidatura do filho e que é natural que Flávio carregue o legado do pai. Ele reconhece que esse é um tema que mobiliza o eleitorado e afirma que, nas viagens que o senador tem feito, é comum ser recebido com gritos de “Volta, Bolsonaro”.

A expectativa é dar início à campanha neste mês com um alto engajamento nas lives, que podem passar a ser feitas com periodicidade. Na quinta (30), a transmissão foi anunciada no Instagram desta forma: “Hoje é dia da nossa tradicional live de quinta-feira”.

Esse integrante também afirma que a reprodução de marcas do pai não exclui os acenos para o centro – para ele, Flávio atualiza o discurso do bolsonarismo ao manifestar seu apoio à manutenção do Bolsa Família e ao defender pautas voltadas às mulheres.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, uma das principais preocupações da campanha é tentar reverter a vantagem que o presidente Lula (PT) mantém entre o eleitorado feminino, como reforçou a mais recente pesquisa Datafolha.

Na transmissão do dia 23, por exemplo, o filho de Bolsonaro defendeu “castração química” para estupradores e afirmou que “mulher é pauta da direita”.

A cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), concorda que o acionamento de características do ex-presidente e a tentativa de se aproximar dos eleitores indecisos não são estratégias antagônicas.

“O eleitor pendular sempre tem como falar que o Flávio Bolsonaro não é o pai dele. É isso que eles trazem nos grupos [nas pesquisas qualitativas]: que ele é diferente do Jair, que não fica falando palavrão, que não é superagressivo”, diz.

A pesquisadora avalia que, ao emular Bolsonaro, Flávio tenta moldar sua imagem de uma forma mais positiva, após uma série de notícias negativas. “As eleições vão, de fato, começar. Me parece uma forma de limpar o terreno, de reafirmar esse compromisso. [Como se dissessem:] Para quem não lembrava, esse aqui é o candidato do Bolsonaro, é a continuidade dele.”

Ela diz, ainda, que essa reprodução parece ter como objetivo engajar a base e gerar mobilização para o período eleitoral. Segundo Camila, esses apoiadores se movimentam para influenciar os eleitores indecisos, tentando convencer familiares e amigos e enviando mensagens nas redes sociais.

“Os eleitores mais entusiasmados votariam no Flávio de qualquer maneira, mas esse pessoal está indo para as eleições com qual energia? Empolgados, animados, ou [pensando] ‘Que droga, queria mesmo era votar no Jair’?”

A intensificação de referências ao ex-presidente também se deu após críticas públicas de bolsonaristas que estavam insatisfeitos com o rumo da pré-campanha.

No início de julho, figuras como os youtubers Paulo Figueiredo e Kim Paim, ligados ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), e Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da gestão Bolsonaro, afirmaram nas redes sociais que a equipe é incompetente e que ela afasta Flávio do DNA bolsonarista.

Naquele momento, Wajngarten pediu a entrada do marqueteiro Duda Lima no time da pré-campanha. Nesta quinta-feira (30), após pessoas ao seu redor terem negado a possibilidade por meses, Duda foi anunciado como chefe da comunicação, em detrimento de Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer, que estavam à frente do marketing.

Além das lives, Flávio tem seguido os passos do pai no enfrentamento direto ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, que o proibiu de visitar o ex-presidente por 90 dias, diante da divulgação de uma carta na qual Bolsonaro diz que o filho é seu porta-voz. Para o magistrado, Flávio descumpriu a medida cautelar que proíbe o pai de usar redes sociais. (Com informações da Folha de S.Paulo)

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