Sexta-feira, 10 de julho de 2026

Inteligência artificial exige apoio ao trabalho do professor

A presença crescente da inteligência artificial (IA) nas escolas brasileiras tem sido frequentemente associada à ideia de modernização do ensino. No entanto, o avanço dessas ferramentas revela menos um sistema educacional estruturado para a inovação e mais a capacidade de adaptação dos professores diante de condições de trabalho desafiadoras e, muitas das vezes, desiguais. Com jornadas extensas, acúmulo de turmas e responsabilidades múltiplas, docentes têm incorporado a tecnologia como forma de organizar o trabalho e responder a demandas crescentes, o que desloca o debate da novidade tecnológica para as condições concretas em que ela é utilizada.

Entre correções de atividades, planejamento de aulas e acompanhamento de diferentes turmas, a IA passou a integrar o cotidiano do professor de maneira prática. Seu uso se estende da elaboração de exercícios à adaptação de conteúdos e à gestão de tarefas, consolidando-se como ferramenta incorporada à rotina escolar.

Os dados da TALIS 2025, pesquisa internacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicam que 56,1% dos professores no Brasil utilizam inteligência artificial em suas práticas. O percentual supera o de países com infraestrutura educacional mais consolidada, mas esse dado, isoladamente, não indica um sistema mais preparado. Ele sugere, sobretudo, que quem está à frente das salas de aulas brasileiras vem respondendo de forma rápida às transformações em curso, ainda que em condições adversas e nem sempre de maneira planejada e articulada a outras ações da rede de ensino.

O relatório “Volume de trabalho dos professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental”, elaborado em 2023 pelo Itaú Social, Associação Dados para um Debate Democrático na Educação (D3e) e Fundação Carlos Chagas, explicita a desigualdade que estrutura esse cenário. Professores das redes municipais e estaduais assumem entre 5 e 17 turmas, com jornadas que variam de 20 a 60 horas semanais. O número de estudantes por docente oscila entre 11 e 525, configurando uma diferença de 47 vezes entre os extremos, com base em dados do Censo Escolar de 2023, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

A adoção da inteligência artificial pelos professores possui um caráter pragmático e legítimo para gerenciar a sobrecarga laboral, mas sua plena integração exige condições estruturais — como tempo e formação — para que ultrapasse a dimensão operacional e alcance o potencial pedagógico. Esse movimento é acompanhado por avanços institucionais, como as diretrizes da UNESCO e do MEC, e marcos legais como o ECA Digital, que estabelecem normas rigorosas de proteção a menores e promovem o uso ético e responsável da tecnologia no ensino.

Ainda assim, a aplicação dessas orientações permanece condicionada às condições concretas encontradas nas escolas. Isso porque, entre o texto da lei e a realidade da sala de aula pode revelar um abismo que a diretriz sozinha não pode resolver.

A formação docente continua sendo um ponto decisivo. Integrar a inteligência artificial de forma qualificada exige tempo para estudo, acesso aos recursos e equipamentos necessários, reflexão pedagógica e revisão de práticas de avaliação. Quando essas condições não estão asseguradas, o uso tende a ocorrer de forma desigual, sustentado por iniciativas individuais que não se convertem, necessariamente, em mudanças estruturais.

As diferenças de infraestrutura entre as escolas também tendem a aprofundar esse cenário. Instituições com acesso adequado à internet, pacotes de dados robustos, equipamentos e plataformas educacionais conseguem explorar de forma mais ampla os recursos tecnológicos e diversificar estratégias de pesquisa e aprendizagem. Em contrapartida, contextos marcados por limitações técnicas enfrentam restrições que comprometem o uso pedagógico da tecnologia. A crescente oferta de ferramentas pagas reforça essas desigualdades ao impor barreiras adicionais de acesso e ampliar a distância entre realidades educacionais já bastante distintas.

Paralelamente, a inteligência artificial tensiona aspectos centrais da prática docente, especialmente no que se refere à autoria e à avaliação. Em um ambiente em que respostas automatizadas se tornam cada vez mais acessíveis, torna-se necessário adotar estratégias que valorizem o pensamento crítico, a argumentação e a produção própria dos estudantes, com atividades que priorizem interpretação, debate e construção de conhecimento.

Sob essas condições, o avanço da IA na educação exige mais do que adesão espontânea ou iniciativas isoladas. É necessário deslocar o foco para ações formativas que deem sustentação ao trabalho docente, para o uso pedagógico da tecnologia, investimento contínuo em formação e garantia de condições materiais adequadas nas escolas. Isso inclui desde infraestrutura básica até a oferta de plataformas institucionais que reduzam a dependência de soluções individuais e desiguais.

Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que a qualidade dessa integração depende do tempo disponível para o professor planejar, testar e avaliar novas práticas, o que implica rever a organização da jornada e enfrentar o desequilíbrio na distribuição de turmas e estudantes. Sem esse conjunto de medidas, a inteligência artificial tende a permanecer como ferramenta de gestão da escassez, e não como recurso efetivo de qualificação do ensino.

Mais do que incorporar tecnologia, o desafio está em criar condições para que ela apoie o trabalho docente e a aprendizagem dos estudantes. E isso não se resolve com a simples introdução de novas ferramentas, mas com decisões políticas consistentes que reconheçam, de forma concreta, o papel central do professor na transformação da educação.

* Sonia Dias – gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em políticas de educação pela Universidade de Vanderbilt (Estados Unidos)

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