Sábado, 06 de junho de 2026

Lula ouve alerta de pautas-bomba no Congresso e diz a ministros que o presiente do Senado “criou problema para ele mesmo”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi alertado, durante reunião ministerial, do risco de avanço no Congresso das pautas-bomba, que se forem aprovadas, poderiam tornar o país “ingovernável” em eventual quarto mandato. A dificuldade na relação do governo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e a derrota da indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF), também foram temas levantados pela articulação política do governo no encontro de trabalho, na parte fechada à imprensa.

Em sua fala, que não foi transmitida, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, alertou o presidente do risco de aprovação de pautas-bomba, com grave impacto fiscal, principalmente no Senado. Ele revelou preocupação, em especial, com duas propostas: a negociação das dívidas dos produtores rurais gaúchos, que está na pauta da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), e a proposta de emenda constitucional (PEC) que concede autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central (BC), em discussão na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Guimarães e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, estão dialogando com o relator da renegociação das dívidas dos agricultores gaúchos, senador Renan Calheiros (MDB-AL), buscando alternativas para a matéria. Estudos da equipe econômica estimam impacto de até R$ 150 bilhões nas contas públicas somente em 2027, podendo somar até R$ 817 bilhões em 13 anos.

Em paralelo, a eventual autonomia do BC, que tem apoio do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, poderia impactar os cofres públicos porque a instituição ficaria livre de cumprir as regras do arcabouço fiscal.

O receio do governo, entretanto, é contestado por fontes que acompanham de perto a discussão da matéria no Senado. Um primeiro argumento é de que a autonomia favoreceria os cofres públicos, porque pode liberar cerca de R$ 6 bilhões de espaço fiscal, uma vez que o Banco Central sairia do orçamento da União, e passaria a financiar seus gastos com recursos próprios. Além disso, mesmo fora do arcabouço fiscal, um dispositivo da PEC estipula limites para as despesas do BC, que ficarão restritas aos gastos do ano anterior, mais a inflação.

Guimarães admitiu que o diálogo com o Senado ficou mais difícil, enquanto o líder do governo, senador Jaques Wagner (PT-BA), reclamou do ineditismo da rejeição do nome de Messias para o STF. Segundo relatos de participantes da reunião, Wagner observou que a instituição sempre respeitou as indicações presidenciais. Argumentou que ele, quando estava na oposição, até respaldou o nome do então magistrado do Piauí Kássio Nunes Marques ao STF, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nesse momento, segundo fontes que testemunharam a cena, Lula teria observado que o governo não tem dificuldade na relação com os senadores. “Eu estou bem” [com eles], comentou. Em seguida, disse que foi Alcolumbre “quem criou um problema para ele mesmo”, e que, por isso, cabe a ele resolver a situação. Um dos presentes afirmou ao Valor que, na sua avaliação, Lula deu a entender, com essa fala, que não fará movimento para se reconciliar com o presidente do Senado, apesar do esforço de mediadores como o próprio Wagner e o ministro da Defesa, José Múcio.

Na mesma reunião, conforme mostrou o Valor Econômico, Lula reafirmou a defesa do Pix como resposta à nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos, e principalmente, como arma eleitoral. Ele ainda reclamou das falhas de fiscalização do preço dos combustíveis e cobrou pressa dos ministros, porque o prazo para anunciar entregas do governo acaba em 3 de julho.

Isso porque, a partir de 4 de julho, começa o chamado período de “defeso eleitoral”, segundo o qual, durante os 90 dias que antecedem o pleito, Lula não poderá entregar obras ou divulgar ações do governo para fins de propaganda eleitoral, e ficará sujeito a restrições da lei eleitoral.

Depois da fala de abertura de Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin; a ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, e os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento, Bruno Moretti, também fizeram exposições sobre suas pastas, além de Guimarães. (Com informações do Valor Econômico)

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