Quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de setembro de 2026
Após Kassio Nunes Marques se declarar impedido no tumultuado julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal) da última terça-feira (15), um grupo de senadores pediu ao ministro que se afaste da relatoria de uma ação que cobra a instalação da CPI (Comissão Parlamentar do Inquérito) do Master. O caso está parado no gabinete de Nunes Marques há seis meses.
No julgamento sobre a validade do relatório da Polícia Federal que identificou 52 mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, Nunes Marques afirmou que na condição de presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), não se sentia “confortável” para participar da análise do caso e por isso se declarou impedido.
Agora, com base na declaração de Nunes Marques, um grupo de senadores, formado por Alessandro Vieira (MDB-SE), Damares Alves (Republicanos-DF), Eduardo Girão (Novo-CE), Magno Malta (PL-ES) e Marcos Pontes (PL-SP), pediu que o ministro abra mão da relatoria da ação que pede a instalação da CPI do Banco Master. Eles pedem que o processo seja encaminhado à presidência da Corte para a realização de um novo sorteio de relator.
De acordo com os parlamentares, embora os dois casos (a ação que cobra a instalação da CPI do Master e o julgamento sobre o relatório de Moraes) sejam distintos, ambos são “desdobramentos do caso Banco Master”, o que recomendaria a mesma cautela e a preservação da “coerência do critério externado” pelo próprio Kassio Nunes Marques.
“Tratam-se, portanto, de questões que, consideradas em conjunto com a orientação recentemente adotada por Vossa Excelência, recomendam a observância da mesma cautela institucional, sem qualquer antecipação quanto ao mérito da pretensão mandamental [do mandado de segurança que cobra a instalação da CPI]”, afirma o grupo.
“Essa convergência institucional e temática, embora preservadas as diferenças entre os processos, reforça a pertinência da remessa dos autos à Presidência desta Suprema Corte para redistribuição, em coerência com a cautela já adotada por Vossa Excelência.”
Considerado um voto a favor da abertura de investigação contra Moraes, Kassio se declarou impedido após sofrer pressão dos colegas nos bastidores e virem à tona reportagens sobre citações ao ministro nos celulares de Vorcaro.
O Metrópoles e a Folha de S. Paulo revelaram que o ex-banqueiro teria pago R$ 10 mil para que uma garota de programa dormisse com o magistrado e discutido com o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, sobre um pagamento mensal de R$ 500 mil a Kevin de Carvalho Marques, filho de 25 anos do ministro que é advogado e tem ganhado crescente influência no Judiciário.
Como revelou o Estadão em março, o Banco Master repassou R$ 6,6 milhões à Consult, empresa de consultoria que fez pagamentos entre agosto de 2024 e julho de 2025 a Kevin.
Inércia de Alcolumbre
O requerimento de criação da CPI do Master já tem mais do que o mínimo de assinaturas necessárias, situação em que a jurisprudência do Supremo manda que seja instalado o colegiado. Os senadores acionaram o STF em março deste ano diante da inércia do presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) de determinar a abertura de uma nova frente de investigação no bojo do caso Master, desta vez no Congresso.
A indefinição prolongada agrada não só Alcolumbre, que viu a Polícia Federal (PF) avançar sobre um apadrinhado do senador que orquestrou o investimento de R$ 400 milhões do fundo de previdência do Amapá, a Amprev, em letras financeiras do Master, mas também ministros do Supremo envolvidos na trama do banco de Vorcaro, como Moraes, Dias Toffoli e o próprio Kassio.
Ao engavetar a ação, Kassio ignora a jurisprudência do STF, que, desde 2005, entende que o cumprimento dos requisitos fixados pela lei demanda a pronta instalação de comissões parlamentares de inquérito, assegurando aos parlamentares o direito de a CPI sair do papel independentemente de um aval do presidente da Casa.
Esse foi, por exemplo, o entendimento usado pela Corte para obrigar o Senado a instalar a CPI da Covid em 2021 durante a gestão de Rodrigo Pacheco, que resistia às pressões da oposição do então presidente Jair Bolsonaro. Uma vez estabelecido, o colegiado revelou os desmandos do governo federal na resposta à pandemia e contribuiu para desgastar a imagem de Bolsonaro.
Agora, mesmo sem a instalação da CPI, o caso Master expõe em praça pública a dilapidação moral do STF.