Terça-feira, 25 de agosto de 2026

Masturbação: quando o prazer começa a cobrar a conta

Talvez você conheça alguém que dorme abraçado ao celular. Não, não estou falando de romance moderno. Estou falando daquele relacionamento em que o telefone vai para a cama, fica ao lado do travesseiro e, curiosamente, parece ter mais atenção do que quem divide o colchão.

A pornografia entrou silenciosamente na rotina de muita gente. Um vídeo aqui, outro ali, “só para relaxar”, “só por curiosidade”, “só mais cinco minutos”. O problema começa quando o “só” deixa de ser exceção e passa a comandar a vida.

Não é sobre demonizar a pornografia. É sobre perceber quando ela deixa de ser uma escolha e começa a escolher por você.

No consultório, uma das diferenças mais importantes está justamente aí. Um comportamento sexual pode existir sem necessariamente ser compulsivo. A questão começa a preocupar quando a pessoa perde o controle, tenta reduzir ou parar e não consegue, utiliza aquele comportamento para fugir de emoções difíceis e, principalmente, quando começam a aparecer prejuízos na vida.

E eles podem ser muitos. A concentração diminui. O tempo desaparece. O interesse por atividades que antes davam prazer pode cair. A intimidade com o parceiro pode esfriar. E aquilo que deveria ser uma vida sexual compartilhada pode se transformar em uma comparação permanente com uma realidade que, convenhamos, foi produzida para a câmera, não para a vida real.

Porque pornografia não ensina necessariamente sobre sexualidade. Ela ensina sobre performance. E aí mora uma armadilha.

O cérebro aprende por repetição. Estímulos intensos e frequentes podem reforçar os circuitos de recompensa e fazer com que a pessoa passe a buscar novidades, maior intensidade ou mais tempo de consumo para obter o mesmo nível de excitação. Não acontece da mesma maneira com todo mundo, mas, em alguns casos, cria-se um ciclo difícil de interromper.

É quando aparece aquele roteiro conhecido: ansiedade, consumo, alívio momentâneo, culpa, promessa de parar… e, algum tempo depois, tudo novamente.

O problema não está apenas na tela. Está no que acontece depois que ela se apaga. Algumas pessoas começam a perceber dificuldade de se excitar com o parceiro, perda de interesse pela intimidade real, expectativas irreais sobre o corpo e sobre o desempenho sexual, além de vergonha, isolamento e sofrimento emocional.

E tem algo ainda mais delicado: quanto mais a pessoa se distancia da própria realidade, mais pode acreditar que o problema é o parceiro.

“Ela não me excita mais.” “Ele não tem o mesmo desempenho.” “Nosso sexo ficou sem graça.”

Talvez o casamento realmente esteja precisando de atenção. Mas, talvez, seja necessário perguntar também: o que está ensinando seu cérebro a esperar do prazer?

Porque a vida sexual real tem cheiro, conversa, insegurança, carinho, imperfeições, pausas, risadas e duas pessoas tentando se encontrar.

A pornografia não mostra a conta do supermercado, a barriga depois do jantar, o cansaço da terça-feira ou aquela conversa difícil antes de dormir. Ela mostra um recorte cuidadosamente produzido para provocar estímulo.

E quando a fantasia passa a ser o parâmetro, a realidade pode parecer sem graça. Mas a realidade não precisa competir com uma tela. Precisa ser vivida.

Se você percebe que perdeu o controle, que tenta parar e não consegue, que o consumo interfere no seu relacionamento, no trabalho, na autoestima ou na sua vida sexual, talvez seja hora de parar de perguntar apenas “quanto eu assisto?” e começar a perguntar: “O que esse comportamento está tentando resolver em mim?”

Essa pergunta pode abrir uma porta importante. Porque, muitas vezes, por trás da busca incessante pelo prazer existe ansiedade, solidão, frustração, insegurança ou simplesmente uma dificuldade de lidar com aquilo que sentimos.

E sentimentos não desaparecem porque encontramos uma tela para distraí-los. Eles apenas esperam. No escuro. Até que alguém tenha coragem de acender a luz.

E, talvez, esse seja o verdadeiro começo da mudança: não quando a pessoa sente vergonha do que fez, mas quando consegue olhar para a própria história com honestidade suficiente para dizer: “Eu não quero mais ser controlado por aquilo que deveria estar sob o meu controle”.

Então, se você percebe que esse comportamento já está interferindo na sua vida, busque ajuda profissional. Eu sei que nem sempre é fácil admitir que precisamos de ajuda, muito menos dar o primeiro passo e falar sobre algo que pode trazer vergonha ou constrangimento.

Mas, se ainda não teve coragem para buscar um profissional, procure alguém de confiança para conversar. Só não sofra sozinho. Porque pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma escolha de coragem.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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