Sábado, 09 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de maio de 2026
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ficou visivelmente irritado com a proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo apurou Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o magistrado acredita que as informações entregues pelos advogados do preso estão distantes do que a Polícia Federal já apurou. Não há, por exemplo, nenhum esclarecimento sobre a relação do banqueiro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre – cujo afilhado político comandava a previdência do Amapá.
O problema de Vorcaro (e de outros que tentam o mesmo caminho) é que o Brasil de 2026 não é mais o Brasil das delações onipotentes de 10, 20 anos atrás, quando o BlackBerry reinava. Hoje, quem quer fazer acordo com a Justiça precisa comer muito arroz e feijão antes de sentar à mesa. E sabe por quê? Porque o smartphone, o celular que sabia demais, chegou primeiro.
A operação realizada contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) é um exemplo da força disso. As mensagens obtidas pela Polícia Federal (e citadas na decisão do próprio Mendonça, relator do caso) mostram com precisão cirúrgica como funcionava o esquema de propina envolvendo o Banco Master e o parlamentar. Hoje, a Pizzaria do Master, que assou Jorge Messias, foi atingida no DiskPizza.
Na prática, ele ganhava uma mesada: a empresa da família Vorcaro enviava mensalmente entre R$ 300 mil e R$ 500 mil para a empresa da família de Ciro Nogueira. Em troca, o senador usaria seu mandato para defender os interesses do banco. Claro que nada disso estava na delação, como mostrou Malu Gaspar e Rafael Moraes Moura, em O Globo.
Ciro Nogueira atuou nos bastidores contra a criação de uma CPMI que investigaria o Banco Master. Ao mesmo tempo, empenhou forças pela aprovação de uma emenda constitucional que aumentaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF – o que beneficiaria diretamente uma instituição que estava escorando seus CDBs exatamente nesse fundo. Também apoiou a compra do Master pelo BRB, banco estatal do Distrito Federal, operação que foi chumbada pelo Banco Central – não sem antes um prejuízo multibilionário para a estatal.
A emenda que ampliaria a cobertura do FGC foi redigida pela assessoria do próprio banco e entregue em envelope no endereço residencial do senador. Depois, Vorcaro comentou a interlocutores que o texto “saiu exatamente como mandei”.
Mas o trecho que resume com mais precisão a relação entre os dois é este, foi extraído de uma conversa dele com seu primo, em junho de 2025, quando o banqueiro cobrou o atraso de dois meses no pagamento da propina: “Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro? (sic)”. Resposta: “Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k”. A informação está em reportagem de Fábio Serapião, no UOL.
Não é difícil entender a irritação de Mendonça. Quando um investigado propõe uma delação, a expectativa da Justiça é de que ele traga algo além do que já se sabe. Que preencha lacunas. Que ilumine zonas de sombra. Que entregue dinheiro para cobrir a lambança que fez. Que diga o nome de pessoas grandes que dobraram a República para atender à necessidade de uma pessoa.
O que Vorcaro aparentemente fez foi o oposto: entregou um pacote cuidadosamente editado, que convenientemente deixava de fora nomes de peso, justamente aqueles cujas relações com o banqueiro já apareceram em outros registros. Tão preocupante quanto quem ficou de fora é o nome daqueles que foram incluídos. Estamos a cinco meses das eleições, e a delação, que ainda precisa ser aceita pela Justiça e referendada com provas pela polícia, pode afetar os rumos do pleito. Basta Vorcaro “esquecer” de apontar alguns envolvidos.
Um magistrado hoje pode dizer, com base em dados concretos: eu sei o que vocês escreveram no celular. Sei o que é verdade e o que é mentira. Traga algo mais ou aceite a sua pena.
A operação contra Ciro Nogueira não é apenas mais uma fase de uma investigação criminal. Ela tem peso político imediato. Ele é presidente nacional do PP e aliado próximo do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência. E a rejeição articulada no Congresso à indicação de Jorge Messias para o STF não surgiu do nada.
Messias, ex-Advogado-Geral da União, estava alinhado com André Mendonça, e sua chegada ao Supremo fortaleceria a posição do relator do caso Master dentro da corte, criando uma maioria mais favorável à continuidade e ao aprofundamento das investigações. Não é coincidência que os setores mais mobilizados contra Messias sejam exatamente aqueles com mais interesse em que o caso Master esfrie. Alas do centrão e do bolsonarismo não querem deixar isso acontecer. (Leonardo Sakamoto/Portal UOL)