Terça-feira, 25 de junho de 2024

Na Itália, Chioggia, a “pequena Veneza”, vira alternativa para roteiros de navios de cruzeiro

Em quatro de agosto, o Viking Sea, navio com mais de 930 passageiros, atracou na Lagoa de Veneza, a Itália. À primeira vista, a cena parecia familiar: uma embarcação branca gigantesca lotada de turistas, na maioria norte-americanos, abrindo caminho por entre estruturas centenárias e canais estreitos; só que dessa vez o destino não era Veneza, mas sim Chioggia, versão menor e menos conhecida da cidade, erguida em outro grupo de ilhas, a pouco menos de 25 quilômetros, mas no mesmo corpo d’água.

Depois de uma série de protestos de grupos ambientais no ano passado, o governo federal recentemente passou a proibir transatlânticos com mais de 40 mil toneladas na bacia de São Marcos, porção da lagoa que cerca o centro histórico de Veneza. O veto, originalmente aprovado em 2012, era condicional: para ser efetivado, teria de oferecer portos alternativos aos cruzeiros que promoviam Veneza em seus itinerários, a uma distância coerente, para que os turistas pudessem explorar a cidade.

As autoridades italianas levaram nove anos para reunir os 157 milhões de euros (cerca de R$ 826 milhões) necessários para modernizar os portos das cercanias, de modo que tivessem condições de receber as embarcações que finalmente começaram a ser desviadas no início do verão setentrional. A maioria foi para Trieste, cidade no nordeste do país, já fora da Lagoa de Veneza, a mais de 115 quilômetros, enquanto outros seguiram para Marghera, o porto comercial na porção continental veneziana.

“Cerca de uma dúzia foi desviada para Chioggia e já esperamos o dobro para 2023”, anunciou Mauro Armelao, prefeito da cidade, com uma ponta de orgulho na voz.

Para Chioggia, o benefício com qualquer coisa que seja tirada do município contíguo tem sabor de reparação. Há séculos, a cidadezinha, normalmente chamada de Pequena Veneza — nome que deixa os moradores furiosos, porque insistem em dizer que a outra é que deveria ser conhecida como uma Chioggia maior — , vive à sombra da vizinha, muito mais famosa.

Enquanto Veneza foi uma potência marítima, entre os séculos X e XVII, Chioggia acabou ficando sob seu domínio, e esse legado levou a um desequilíbrio que é sentido até hoje. O pequeno centro da classe trabalhadora tradicionalmente dependente da pesca e da agricultura, e famoso pelo radicchio e pela beterraba, há tempos fornece mão de obra para o outro, maior e mais rico — e continua assim até hoje, já que a maior parte dos condutores de vaporetto e dos funcionários dos hotéis mora lá.

O desprezo veneziano em relação aos vizinhos é tradicional. A descrição do dramaturgo Carlo Goldoni ficou famosa, retratando-os como briguentos, ainda que simplórios de bom coração, arrumando encrenca por motivos banais.

Os chioggiotti, porém, têm muito orgulho de ser autênticos e um pouco rústicos em comparação com a sofisticação veneziana. Todo ano, no início de agosto, uma companhia teatral local apresenta “Le Baruffe Chiozzotte”, de Carlo Goldoni, nas ruas, e os ingressos se esgotam rapidamente.

Veneza debocha de Chioggia, referindo-se ao símbolo da cidade — o leão, que também é o seu — como el gato, ainda que a cidadezinha tenha ganhado recentemente uma estátua de bronze majestosa retratando o felino, obra do escultor Davide Rivalta, em parte “para garantir que o pessoal entenda de uma vez por todas que não é gato”, como explicou o prefeito.

E, ao contrário de Veneza, castigada pelo turismo excessivo, Chioggia aprecia os visitantes extras.

“Temos tanto orgulho de ver esse pessoal por aqui, falando inglês pelas ruas… Não estávamos acostumados”, revelou a professora Alessia Boscolo Nata.

A chegada dos cruzeiros se encaixa no crescimento do turismo como um todo que Chioggia vem vivendo há cinco anos — tendência que parece ter encontrado o equilíbrio perfeito, ajudando até na revitalização de seu centro histórico. De fato, ela não é novata em questões turísticas, mas a atividade ficava limitada a duas cidadezinhas-satélites, Isola Verde e Sottomarina, dependentes do “turismo balneare”, ou seja, das férias familiares na praia. A ilha principal, com o mercado de peixe, a catedral do século XVII e a torre do relógio medieval, era basicamente ignorada.

Nos últimos anos, porém, um novo tipo de turista começou a chegar por ali.

“Não estavam só interessados nas praias; viam Chioggia como uma città d’arte. Isso teve um efeito positivo, estimulando uma renovação urbana que se tornou popular entre os millenials e a Geração Z local”, contou Giuliano Boscolo Cegion, presidente da associação hoteleira municipal.

“Cinco anos atrás estava tudo caído, era uma chatice, não tinha nada para os jovens fazerem. Hoje a cidade está cheia de vida e de lugares bacanas”, vibrou Bellemo.

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