Domingo, 02 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 1 de agosto de 2026
A reposição hormonal voltou a ser o foco das discussões sobre menopausa – e isso é uma boa notícia. Foram anos de receios e medos até ela passar a ser discutida com mais informação e respaldo científico, melhorando a qualidade de vida de milhares de mulheres. Mas isso trouxe um efeito curioso: para muita gente, qualquer cansaço, esquecimento ou falta de disposição depois dos 45 anos passou a ser automaticamente atribuído à queda do estrogênio.
Só que nem os hormônios são a única resposta. Em alguns casos, sintomas que parecem típicos da menopausa escondem deficiências nutricionais bastante frequentes nessa fase da vida e que podem potencializar – ou até explicar – parte do mal-estar. “A menopausa provoca mudanças hormonais importantes, mas ela também coincide com alterações metabólicas e nutricionais que não podem ser ignoradas”, diz a ginecologista Ana Paula Fabricio, pós-graduada em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). “Se a mulher continua cansada ou sem energia, mesmo com reposição hormonal, precisamos investigar outras causas”, conclui.
Fadiga persistente, perda de força muscular, dificuldade de concentração, dores musculares e até alterações de humor podem estar relacionadas também à deficiência de vitaminas e minerais. “Antes de concluir que é apenas menopausa, e partir para tratamento com hormônios, vale avaliar os exames laboratoriais”, indica a especialista.
Esse olhar mais amplo faz sentido. A menopausa representa uma das maiores transformações metabólicas da vida da mulher. Além da redução do estrogênio, acontecem mudanças na composição corporal, na absorção de alguns nutrientes, na massa muscular e na saúde óssea. Ignorar essa combinação significa, muitas vezes, deixar de tratar fatores que têm solução.
Muito além dos hormônios
A deficiência estrogênica continua sendo protagonista da menopausa. Mas hoje se sabe que qualidade de vida nessa fase depende de um conjunto de fatores. Alimentação, atividade física, sono, saúde mental e estado nutricional influenciam diretamente a forma como cada mulher atravessa essa transição. “A menopausa não é apenas uma transição reprodutiva. Ela está associada a alterações corporais, na saúde óssea, no metabolismo energético e na função muscular. Avaliar possíveis deficiências nutricionais faz parte de uma abordagem mais ampla da saúde feminina”, explica a médica.
Veja os nutrientes que podem estar aumentando ou provocando os sintomas nessa fase:
Vitamina D
Quando se fala em vitamina D, quase todo mundo pensa imediatamente em osteoporose. Mas tem muito mais. Ela participa da contração muscular, do funcionamento do sistema imunológico e exerce influência sobre o equilíbrio, a força e até o humor.
Uma revisão publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism mostra que a deficiência de vitamina D é altamente prevalente após a menopausa e está associada à redução da força muscular, pior desempenho físico e maior risco de quedas e fraturas. A International Osteoporosis Foundation também recomenda atenção especial aos níveis da vitamina nessa fase da vida justamente por seu papel conjunto na saúde óssea e muscular. “Após a menopausa ocorre uma aceleração natural da perda óssea por causa da redução do estrogênio. Quando existe deficiência de vitamina D associada, esse processo pode ser ainda mais preocupante para a saúde musculoesquelética”, afirma Ana Paula.
Outro fator ajuda a explicar por que essa deficiência é tão comum: com o envelhecimento, a pele perde parte da capacidade de produzir vitamina D a partir da exposição ao sol. Some-se a isso uma rotina cada vez mais dentro de ambientes fechados e o resultado é um número crescente de mulheres com níveis insuficientes.
Vitamina B12
Os famosos lapsos de memória fazem parte das queixas mais frequentes da menopausa. Mas eles nem sempre têm origem exclusivamente hormonal. A vitamina B12 é essencial para o funcionamento do sistema nervoso e para a produção das células sanguíneas. Com o avanço da idade, sua absorção pelo intestino tende a diminuir, aumentando o risco de deficiência.
Uma revisão publicada na revista científica Nutrients mostra que níveis baixos de vitamina B12 estão associados a fadiga, fraqueza, dificuldade de concentração e alterações cognitivas – sinais que facilmente podem ser confundidos com menopausa. “Mas nem sempre esses sintomas são explicados apenas pelas alterações hormonais. Em alguns casos, investigar a vitamina B12 é fundamental”, diz a ginecologista.
Proteína
A perda progressiva de massa muscular acontece naturalmente com o envelhecimento, mas tende a acelerar após a queda do estrogênio, que começa na perimenopausa. Quando essa perda se soma ao sedentarismo e ao consumo insuficiente de proteínas, a consequência vai muito além da estética.
Diretrizes da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) destacam que mulheres mais velhas precisam de maior atenção ao consumo de proteínas justamente para preservar força, funcionalidade e independência ao longo do envelhecimento. “Existe uma preocupação crescente com a saúde muscular da mulher depois dos 50 anos. Preservar massa magra não é apenas uma questão estética. Trata-se de manter força, mobilidade, autonomia e qualidade de vida”, afirma Ana Paula. A médica lembra que hoje a massa muscular é considerada um dos principais marcadores de envelhecimento saudável.
Ferro
Embora a deficiência de ferro seja mais lembrada durante o período reprodutivo, ela também pode ocorrer após a menopausa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a falta desse mineral continua sendo uma das carências nutricionais mais comuns do mundo e pode comprometer o transporte de oxigênio para os tecidos. “O resultado aparece no dia a dia: cansaço, falta de energia, dificuldade de concentração e até queda de cabelo”, explica a especialista.
Suplementação nutricional X Reposição hormonal
Não se trata de escolher entre uma coisa ou outra, mas de entender o que está faltando ao seu organismo. Cada mulher tem uma combinação única de necessidades. “Nem tudo é consequência inevitável dos hormônios ou do envelhecimento. Assim como sem sempre é preciso recorrer à suplementos”, afirma Ana Paula.
Segundo ela, algumas mulheres conseguem corrigir deficiências apenas ajustando a alimentação. Outras precisarão de suplementação e, em situações específicas, até de reposição injetável. “Precisamos tratar cada mulher de um jeito único, e como um todo. Alimentação, atividade física, sono, saúde mental, hormônios e estado nutricional caminham juntos. Quando avaliamos todos esses fatores, conseguimos identificar o que realmente está afetando a qualidade de vida.” A menopausa muda muita coisa, mas não é a culpada por tudo. E, justamente por isso, precisamos de um olhar mais amplo e cuidadoso para não colocar as expectativas de solução apenas na reposição hormonal.