Segunda-feira, 01 de junho de 2026

No Rio, quadrilhas movimentam no sistema bancário R$ 44 bilhões em três meses

Uma rede de 60 motéis no interior de São Paulo chamou a atenção de autoridades pela aquisição de bens inusitados: um iate de 23 metros, um helicóptero, uma Lamborghini e mais de R$ 20 milhões em terrenos. Com faturamento de R$ 450 milhões em quatro anos, a distribuição de lucros ainda engordou o caixa dos sócios em R$ 45 milhões.

Operação policial revelou que a rede fazia parte dos negócios do Primeiro Comando da Capital (PCC), assim como lojas de franquias e empreendimentos imobiliários. Outra investigação mostrou que empresas com envolvimento com a facção criminosa paulista passaram a controlar um dos terminais do porto de Paranaguá (PR), um dos maiores do país.

O espaço tem cerca de 85 mil metros quadrados e 18 tanques para armazenagem de granéis líquidos. Os exemplos evidenciam um fenômeno ganha escala no país: a infiltração do crime organizado na economia legal. Afeta vários setores e já chega à indústria, que responde por um quinto da riqueza do país.

Sondagem inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 1.398 empresas dos 32 segmentos industriais estimou perda de receita anual da ordem de R$ 39 bilhões, ou 0,6% das vendas de fábricas e atividades extrativas, para o crime organizado.

PCC e Comando Vermelho (CV) vêm se aproveitando de brechas regulatórias e baixa fiscalização para diversificar suas atividades em setores econômicos formais, sem abandonar o mercado ilegal de drogas. Na semana passada, os EUA classificaram essas facções como organizações terroristas. A designação deve elevar ainda mais o custo de empresas brasileira para se proteger desses grupos e pode afetar negócios e investimentos.

‘Setor financeiro terá que redobrar atenção’
Mario Sarrubbo, ex-secretário nacional de Segurança Pública, afirma que a classificação permite aos EUA criar barreiras para a instalação de empresas brasileiras em território americano, para o comércio exterior ou até mesmo para o turismo.

No limite, fintechs brasileiras que por ventura tenham sido usadas pelo crime organizado, mesmo sem relação direta com o esquema, poderão ser sancionadas. Nesse raciocínio, empresas cujas mercadorias passam por terminal portuário ligado ao PCC, por exemplo, podem ter mesmo destino.

— O setor financeiro terá que redobrar sua atenção, o que significa aumento de custo para qualquer um, para todos os brasileiros, de simples correntistas a bancos que tenham exposição aos EUA — afirmou.

Para Roberto Uchôa, pesquisador da Universidade de Coimbra, a decisão oferece maiores riscos de impacto para empresas do sistema financeiro e de combustíveis após operações recentes da Polícia Federal revelarem que há uma infiltração de facções como o PCC nos setores:

— Empresas estrangeiras que fazem negócios com brasileiras, terão que ter muito mais cuidado, porque senão também podem acabar sendo alvo de sanção (dos EUA). Isso vai criar uma pressão no comércio internacional brasileiro e investimentos internacionais no Brasil. O trabalho de compliance (conformidade) vai ter que ser muito mais profundo.

Indícios bilionários
O governo Lula refuta a classificação de terrorismo e argumenta que elas não atuam por ideologia, mas por lucro, conforme mostram as investigações brasileiras recentes. Faltam dados precisos de quanto essas quadrilhas movimentam na economia, com a principal motivação de lavar dinheiro, mas uma dimensão dessa corrente financeira fica evidente em levantamentos recentes.

Nos últimos três meses, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) comunicou R$ 44,1 bilhões em movimentações suspeitas de facções criminosas só no Rio de Janeiro — é um recurso suficiente para pagar o Bolsa Família nesse período.

O órgão recebe, examina e identifica operações financeiras suspeitas a partir de investigações policiais. No caso do PCC, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) estima que a receita anual em sua atuação em setores econômicos pode chegar a R$ 12 bilhões.

Já foi identificada a infiltração de quadrilhas nos segmentos de combustíveis, construção, transporte público, bebidas, cigarros, mineração, imobiliário, apostas, hotelaria, varejo, pecuária, atividades financeiras e serviços públicos — extensão que o Ministério Público Federal considera “preocupante”. Meios eletrônicos como as bets são outro segmento em que é fácil ocultar recursos e dar ares de legalidade ao dinheiro sujo.

Até o agronegócio foi alcançado. No segmento de fertilizantes, o roubo de cargas foi o primeiro passo para a estruturação do mercado ilícito. Em esquemas que envolvem a cooptação de motoristas, as cargas são desviadas para fábricas clandestinas, onde o produto de qualidade é retirado e revendido ilegalmente adulterado.

No lugar do original, é colocado material de péssima qualidade, misturado com areia, madeira ou tijolos triturados, entregue ao cliente final sem que o agricultor, muitas vezes, perceba a troca. Esse crime cresce desde a guerra na Ucrânia, que elevou o preço internacional do insumo. Com informações do portal O Globo.

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