Quarta-feira, 29 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de julho de 2026
Durante muito tempo, a humanidade acreditou que a atmosfera era um espaço infinito, capaz de absorver gratuitamente tudo aquilo que a atividade econômica lançava no ar. A fumaça das indústrias, os gases emitidos pelos veículos, a geração de energia baseada em combustíveis fósseis e inúmeras outras atividades eram vistas como o preço inevitável do progresso.
A ciência, porém, demonstrou que a conta ambiental existe e que ela já está sendo paga pela sociedade na forma de eventos climáticos extremos, perdas na agricultura, escassez hídrica, impactos à biodiversidade e prejuízos crescentes para a economia. O que muda agora é que essa conta começa, finalmente, a ser incorporada também às decisões econômicas.
É justamente essa a importância da Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criando o mercado regulado de carbono no Brasil. Embora o nome pareça complexo, a ideia por trás da lei é bastante simples. Até hoje, emitir gases de efeito estufa tinha um custo ambiental para toda a sociedade, mas praticamente nenhum custo econômico para quem emitia. O SBCE começa a corrigir essa distorção ao estabelecer limites para grandes emissores e criar um ambiente em que reduzir emissões passa a gerar valor econômico. Empresas que conseguirem diminuir sua pegada de carbono poderão transformar esse esforço em um ativo negociável; aquelas que continuarem emitindo acima dos limites estabelecidos terão de investir em redução de emissões ou adquirir créditos para compensar seu impacto. Em outras palavras, a economia passa a reconhecer aquilo que a natureza já demonstrava há décadas: poluir não pode continuar sendo um negócio sem consequências.
É importante compreender que essa lei não foi criada para punir empresas, muito menos para dificultar o crescimento econômico. Seu verdadeiro objetivo é estimular a inovação. Sempre que um país cria incentivos para que tecnologias mais eficientes substituam processos ultrapassados, toda a economia tende a evoluir. Foi assim com a revolução digital, com a automação industrial, com a eficiência energética e com tantas outras transformações que hoje fazem parte do nosso cotidiano. O mercado de carbono segue exatamente essa lógica. Ele cria um ambiente em que investir em tecnologias limpas, modernizar processos produtivos, desenvolver soluções de baixo carbono e aumentar a eficiência deixa de ser apenas uma escolha ética e passa a ser também uma decisão inteligente do ponto de vista econômico.
É justamente nesse ponto que surge uma das maiores oportunidades para o Brasil. O país reúne condições que poucas nações possuem: uma matriz elétrica predominantemente renovável, enorme potencial em energia solar, eólica, biomassa, biogás, hidrogênio de baixa emissão e uma biodiversidade capaz de sustentar uma das mais importantes economias verdes do planeta. A nova legislação pode acelerar esse processo ao estimular o surgimento de negócios sustentáveis, novos modelos de investimento, tecnologias ambientais, serviços especializados, certificações, soluções para descarbonização e um mercado de inovação que tende a movimentar bilhões de reais nas próximas décadas. Em vez de enxergar o carbono apenas como um problema ambiental, passamos a percebê-lo também como um fator de competitividade, capaz de abrir mercados e atrair investimentos para empresas preparadas para uma economia cada vez mais comprometida com a sustentabilidade.
Naturalmente, nenhuma lei é perfeita, e o SBCE também enfrentará desafios importantes. Sua implementação exigirá regras claras, transparência, sistemas confiáveis de monitoramento das emissões, fiscalização eficiente e segurança jurídica para investidores e empresas. A credibilidade do mercado dependerá da qualidade de sua regulamentação e da capacidade de evitar distorções que comprometam sua confiança. Esses desafios existem e não devem ser minimizados. Entretanto, reconhecer dificuldades não significa desacreditar da proposta. Ao contrário, significa compreender que toda transformação relevante exige aperfeiçoamento contínuo, diálogo entre governo, setor produtivo, academia e sociedade e disposição para construir instituições sólidas.
Infelizmente, ainda existem aqueles que tratam o mercado de carbono como uma moda passageira ou como mais uma intervenção desnecessária na economia. É uma crítica compreensível, mas que ignora a história. Quase todas as grandes mudanças enfrentaram resistência antes de demonstrarem seu valor. Houve quem desacreditasse da internet, da energia solar, dos veículos elétricos e até da capacidade das empresas de conciliar lucro com responsabilidade socioambiental. Hoje sabemos que inovação e sustentabilidade caminham juntas. O mercado de carbono não resolverá sozinho o aquecimento global, assim como nenhuma política pública isolada resolverá um problema tão complexo. Mas ele cria algo fundamental: um incentivo econômico para que milhões de decisões empresariais passem a considerar o impacto climático como parte de sua estratégia de negócios.
Talvez essa seja a maior contribuição da Lei nº 15.042/2024. Ela simboliza uma mudança de mentalidade. O desenvolvimento do século XXI não será medido apenas pela quantidade de riqueza produzida, mas também pela forma como essa riqueza é gerada. Países que compreenderem essa transformação liderarão a economia do futuro; os que insistirem em modelos incompatíveis com a nova realidade correrão o risco de perder competitividade e oportunidades. O Brasil reúne todas as condições para ocupar posição de destaque nessa nova economia, desde que transforme seus recursos naturais, sua capacidade de inovação e seu talento empreendedor em uma verdadeira estratégia nacional de desenvolvimento sustentável. O mercado de carbono não representa o ponto de chegada dessa jornada, mas certamente pode ser um dos seus mais importantes pontos de partida.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)