Sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 10 de setembro de 2026
Existe no oceano um lugar tão remoto e isolado que os seres humanos mais próximos são os astronautas que orbitam a Terra a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS). Em 1992, o engenheiro croata Hrvoje Lukatela foi a primeira pessoa a localizar esse local, que ele denominou “polo oceânico de inacessibilidade”.
Para calcular o ponto no oceano mais distante da costa, Lukatela utilizou um programa de geolocalização e seguiu um critério aparentemente simples: definir um círculo com três pontos em terra cujo interior era preenchido apenas com água. Seu centro seria a localização desejada. O engenheiro o posicionou nas águas do Oceano Pacífico, cujas coordenadas são atualmente consideradas 48°52,6’S-123°23,6’W.
Mais tarde, a comunidade científica renomeou-o como “Ponto Nemo” em homenagem ao capitão do submarino Nautilus, que Júlio Verne trouxe à vida em seu romance “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Seu nome significa “ninguém” em latim e parece apropriado para este lugar quase desabitado.
As massas de terra mais próximas do Ponto Nemo são três pequenas ilhas espalhadas pelo Pacífico, formando os vértices mencionados por Lukatela: ao norte, a Ilha Ducie, no arquipélago das Ilhas Pitcairn; a nordeste, Motu Nui, parte da Ilha de Páscoa; e na ponta sul, a ilha rochosa de Maher, que faz fronteira com a costa da Antártida. Todas as três estão a 2.688 quilômetros equidistantes do polo de inacessibilidade. Isso já é um aviso suficiente para manter a maioria dos navios afastados: em caso de problemas, as operações de resgate são dificultadas pelo isolamento dessas ilhas.
O Cabo Nemo funciona como um deserto marinho guardado por albatrozes que sobrevoam a região; até mesmo a vida aquática é escassa ali. Oceanógrafos descrevem as águas circundantes como uma das regiões menos produtivas biologicamente do planeta, pois estão localizadas dentro do Giro do Pacífico Sul, uma vasta corrente rotativa que bloqueia a entrada de correntes oceânicas ricas em nutrientes. Além disso, sua distância da costa impede a chegada de matéria orgânica transportada pelo vento.
— Não estamos falando de belas ilhas tropicais, mas sim de regiões entre 40 e 50 graus de latitude sul, onde o mar é agitado e quase não há terra. Não fica nas rotas marítimas habituais, e até os pinguins tendem a evitar essa região — descreveu Jonathan McDowell, astrofísico do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica.
Apesar de, como diria McDowell, “até os pinguins evitam o Ponto Nemo”, há duas pessoas que foram especificamente para encontrá-lo: Chris e Mika Brown, pai e filho, respectivamente.
— O Pacífico Sul é um lugar selvagem. Os marinheiros dizem que abaixo de 40 graus não há lei, o que significa que as regras usuais de navegação não se aplicam. E abaixo de 50 graus não há Deus! — disse Chris Brown ao La Nacion.
Desde o momento em que partiram do Chile, enfrentaram ondas de 11 metros de altura com uma frequência de 13 segundos.
— Era simplesmente um furacão atrás do outro. Tivemos que abandonar o Nemo 20 minutos depois de começarmos a nadar no mar — recordou o explorador britânico.
Assim, em março de 2024, Brown e seu filho se tornaram os primeiros humanos a alcançar essas coordenadas e mergulhar no oceano, como parte de seu projeto Oito Polos, por meio do qual ele planeja visitar os oito polos de inacessibilidade do planeta. Nemo foi o mais remoto, e seu planejamento levou três anos, mas para o explorador, nenhuma expedição termina ao chegar ao destino.
— Como qualquer alpinista diria, você só escalou uma montanha de verdade quando retorna ao acampamento base são e salvo. A sensação física foi quase como eu havia imaginado. Estava frio, e a travessia das ondas foi agitada. O que eu não esperava era ser atacado por um albatroz! — explicou Brown. Com informações do portal O Globo.