Domingo, 31 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 31 de maio de 2026
Personalidade forte não é personalidade difícil. Costumo reforçar isso toda vez que alguém faz uma observação do tipo. Não. De jeito nenhum. E, embora pareça apenas uma pequena “precisão lexical”, trata-se de uma alteração conceitual profunda e extremamente importante para os parâmetros de mundo que queremos construir.
Basta alguém falar alto, interromper os outros, bater na mesa, criar conflitos por onde passa ou transformar qualquer divergência em guerra para receber o rótulo de “personalidade forte”.
Eu discordo.
Isso não é personalidade forte.
Isso é personalidade difícil.
Personalidade forte não é a da pessoa que domina uma sala pelo medo. É a da pessoa que domina a si mesma. Porque, veja, nos dias de hoje é muito fácil perder o controle. Tão fácil que o que mais temos visto são pessoas entrando em colapso e tomando atitudes extremadas. Está aí, nos noticiários, todo-santo-dia.
Difícil mesmo é manter o controle. Escutar. Analisar. RESPIRAR. Avaliar o que vale a pena, e o que é apenas um lapso passageiro de emoção. É muito fácil explodir. Difícil é responder com serenidade. É muito fácil desistir. Difícil é continuar.
Os fortes, afinal, não gritam. Não gritam porque não precisam. Basta observar as artes marciais. Basta observar os sábios. Basta observar os pais e mães que agem de forma firme, consistente e respeitosa na educação de seus filhos. A sua força não está no volume da voz, mas na firmeza das convicções. Está exatamente no silêncio. No silêncio que precede a reflexão, no silêncio que permite escutar, no silêncio de quem observa antes de agir, no silêncio da ação efetiva, que resolve um problema, ao invés de apenas apontá-lo (ou, pior, torná-lo maior).
Vivemos, porém, na era da lacração, onde todos se exibem como pavões diante da câmera de um celular. Mas, né? A verdadeira força raramente faz espetáculo de si mesma…
Até porque é preciso compreender que, quando somos tomados pela raiva, pelo impulso ou pelo medo, nosso organismo libera hormônios do estresse, como o cortisol. Em excesso, eles prejudicam justamente aquilo que mais precisamos em momentos difíceis: clareza, discernimento e capacidade de decisão.
Já as pessoas emocionalmente equilibradas conseguem se autorregular. Não desperdiçam energia em conflitos inúteis. Não entram em todas as brigas. Não transformam cada divergência em uma guerra. Pelo contrário: elas escolhem as suas batalhas.
E não porque lhes falte coragem! Não. É porque sabem exatamente onde investir sua energia.
São aguerridas, mas não são REATIVAS.
São firmes, mas não são EXPLOSIVAS.
Sabem que a verdadeira força não está em vencer todas as discussões. Está em preservar recursos físicos, emocionais e mentais para vencer as batalhas que realmente importam.
Aliás, aqui no Rio Grande do Sul, usamos muito essa palavra… “aguerrido”. E ela é bonita justamente porque não descreve alguém que grita. Descreve alguém que persiste com garra, de forma resiliente e corajosa.
E, veja só como são as coisas. Foi justamente essa percepção que tornou Darwin célebre: a sobrevivência não pertence necessariamente aos mais fortes fisicamente, nem aos mais inteligentes, mas àqueles capazes de se adaptar às mudanças.
Portanto, a maior habilidade que um ser humano precisa desenvolver é essa: a arte de dominar a si mesmo para fazer o que precisa ser feito. Daí porque o maior sinal de força seja, justamente, saber onde não gastar energia. Você não precisa discutir com o machão que te fecha no trânsito. Você não precisa entrar em guerra com alguém que transformou a política em religião. Você não precisa convencer quem não quer aprender. Você-não-precisa. Ponto.
Energia é um recurso precioso. Tempo é um recurso precioso. Paz de espírito é um recurso precioso. E desperdiçar qualquer um deles em situações inúteis é um péssimo negócio.
E digo mais. Os sábios sabem que sabem e, ainda assim, permanecem abertos. Abertos para ouvir, para aprender, para reconhecer erros, para mudar de ideia quando encontram argumentos melhores. Abertos para crescer enquanto seres humanos.
Afinal, só acredita ser dono da verdade quem ainda não compreendeu a dimensão da própria ignorância. Lembre-se que, há mais de dois mil anos, Sócrates já havia chegado a essa conclusão ao afirmar: “Só sei que nada sei.”
Paradoxalmente, é dessa humildade que nasce a verdadeira força. Enquanto a pessoa fraca precisa parecer certa o tempo todo, a pessoa forte, não. Ela sabe que a perfeição não existe. Sabe que todos estamos em constante aperfeiçoamento. Sabe que a vida é movimento, adaptação e aprendizado.
Então, os fortes não gritam porque não precisam. Estão ocupados demais aprendendo, construindo, servindo, trabalhando, amando, recomeçando e transformando o mundo à sua volta.
Enquanto alguns fazem barulho, eles fazem acontecer. No fim do dia, são eles que sustentam famílias, comunidades, empresas, estados e nações. Esses que quase nunca aparecem. Mas que, quando tudo desmorona, sempre aparecem para reconstruir.
Os fortes.
Instagram: @ali.klemt