Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

“Ou abria mão do mandato ou morreria. Escapei por pouco de um linchamento”, diz o ex-deputado Jean Wyllys

Exilado desde 2019, quando renunciou ao mandato após sofrer ameaças de morte, o ex-deputado federal Jean Wyllys pretende voltar este ano ao Brasil. Um dos representantes mais incisivos da esquerda retorna ao País defendendo a urgência de se “desbolsonarizar” a política e a sociedade brasileiras. “Ou nos restará puxar a cadeira, sentar e esperar a história se repetir. Sem responsabilização dos culpados não há reconciliação nem aprendizado para o futuro”, diz, da Espanha, onde vive.

Filiado ao PT, ele conta não ter sido convidado a participar do novo governo. Vítima de fake news, escreve tese de doutorado sobre o tema na Universidade de Barcelona e avisa: “não me importa o quanto o PT capitule diante da desinformação, não vou ceder”. Autor, com a filósofa Marcia Tiburi, de “O que não se pode dizer: experiências do exílio”, Wyllys se reuniu com lideranças na última terça (28), no legislativo espanhol, em Madri, para tratar da solidariedade internacional a vítimas da violência política na América Latina e no Leste Europeu.

Enquanto aguarda o reconhecimento, pelo governo petista, de medida cautelar de proteção à sua vida requerida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, Wyllys trata de política na plataforma Open Democracy, se dedica às artes plásticas, prepara livro com a antropóloga australiana Julie Wark.

1) Já há data para volta ao Brasil?

Sei que quero voltar e vou voltar. O (professor da UFRJ) Fernando Salis vai levar ao Brasil minha exposição “Desexílio”, que esteve até janeiro no Palau de La Virreina (em Barcelona). Quando tudo fechar, terei a data exata. Espero que (até lá) o novo governo conceda a medida cautelar de proteção à minha vida requerida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA e negada por Michel Temer. Negada talvez por eu ter sido central na resistência ao golpe, no Congresso e nas mídias sociais. Espero que o governo Lula, não só no plano simbólico, mas também no prático, dê condições para que eu, Marcia Tiburi, a (antropóloga) Debora Diniz e outros exilados possam retornar e atuar intelectual e politicamente no Brasil.

2) E como deseja atuar na arena pública nacional?

Hoje, não quero fazer campanha eleitoral. Já dei minha contribuição, cumpri dois mandatos de vanguarda, abri caminho para muita gente bacana. Posso contribuir com o governo Lula pensando políticas públicas nas áreas em que transito, devolver o que acumulei de experiência no exílio.

3) Aceitaria um cargo no governo Lula?

Não tive convite. Tudo que fiz em defesa do governo Dilma e da inocência de Lula quando ele era considerado radioativo até mesmo por parlamentares do PT na época de sua prisão, na denúncia dos abusos da Lava-Jato, no enfrentamento da extrema-direita quando era sequer reconhecida, na restituição da democracia, não foi esperando algo em troca. Não faço cálculo político. Tenho princípios, paixão. E discernimento: lealdade e gratidão não são os fortes da política no Brasil.

4) Você tem falado na necessidade de se ‘desbolsonarizar’ o Brasil, não apenas do governo, mas da sociedade…

A desbolsonarização e o combate ao antipetismo são ações que devem ser feitas em conjunto. Se não as fizermos, o que nos restará será puxar a cadeira, sentar e esperar a história se repetir. Enfrentar a extrema-direita e sua ideologia em todos os níveis, inclusive no plano das políticas econômicas, não é revanche política: é justiça. Sem responsabilização dos culpados, não pode haver reconciliação nem aprendizado para o futuro.

5) O quão difícil foi renunciar ao mandato parlamentar?

Não tinha alternativa. Ou abria mão ou morreria. Em 2016, escapei por pouco de um linchamento na Lapa, no qual morreríamos eu e dois assessores. Após o assassinato da (vereadora carioca) Marielle Franco, a violência contra mim se intensificou. Passei a viver em cárcere privado, acompanhado por seguranças. Você não tem ideia dos danos que essa violência me causou. No Rio, era ameaçado de morte até por taxistas.

6) Como vê a força do bolsonarismo no Rio, a possível candidatura do senador Flavio Bolsonaro (PL) à prefeitura da capital e a fragilidade da esquerda fluminense?

O Rio virou um narcoestado, em que as fronteiras entre instituições e crime organizado estão borradas. Não me espanta que um escroque como Flávio Bolsonaro pretenda, depois dos crimes que seu pai e seu irmão perpetraram, ser prefeito do Rio. Chocante é a elite fluminense ter se permitido chafurdar nessa merda. Para sorte dos cidadãos, ainda há no Rio uma esquerda ilustrada, que resiste e à qual agradeço os votos.

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