Quinta-feira, 28 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de maio de 2026
O papa Leão XIV repudiou nesta semana uma premissa usada pela Igreja Católica desde pelo menos o século V para avaliar quando os países podem usar justificativas para travar guerras, em uma medida que, segundo especialistas, pode ter um impacto de longo alcance para as potências globais.
A rejeição à doutrina foi revelada no primeiro grande documento do papa, publicado na segunda-feira (25), que também pediu a regulamentação global dos sistemas de inteligência artificial e pediu desculpas devido a Igreja Católica não ter condenado a escravidão.
“A teoria da ‘guerra justa’, que tem sido usada com muita frequência para justificar qualquer tipo de guerra, agora está ultrapassada”, escreveu Leão na encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas”. “A humanidade possui ferramentas muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana e resolver conflitos, como o diálogo, a diplomacia e o perdão”, disse ele.
Blase Cupich, cardeal de Chicago e aliado próximo de Leão, estava no Vaticano para a apresentação do texto na segunda-feira. Ele afirmou à Reuters que o papa está preocupado com a forma como a teoria tem sido usada pelos líderes mundiais para justificar a guerra.
“Temos que deixar claro que a teoria da guerra justa sempre foi concebida para ser uma restrição, não uma permissão que, infelizmente, alguns estão usando indevidamente para justificar suas decisões de ir à guerra em vez de buscar os caminhos da paz”, declarou Cupich.
Leão adotou um tom mais enérgico nos últimos meses e atraiu críticas do presidente Donald Trump, depois de falar contra a guerra no Irã. O pontífice também criticou o número de guerras que assolam o mundo em seu texto e alertou que os lucros da indústria de armas são uma força motriz por trás dos conflitos.
A teoria da guerra justa, que em geral diz que os conflitos só devem ser travados para se defender contra agressões, foi invocada por autoridades do governo Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, um católico, para justificar a guerra no Irã.
Em abril, depois que a conta oficial do papa no X postou que Deus “nunca está do lado daqueles que já empunharam a espada”, Vance mencionou a teoria da guerra justa em um evento no estado da Geórgia e pediu que o papa “tivesse cuidado ao falar sobre questões de teologia”.
Anna Rowlands, uma acadêmica britânica que participou da apresentação do documento do papa no Vaticano na segunda-feira, afirmou à Reuters que Leão está expressando preocupação com “uma nova era de conflitos em transformação, agora cada vez mais impulsionados pela tecnologia”.
“É uma declaração forte sobre a necessidade de (a teoria da guerra justa) ser colocada em um contexto mais amplo e renovado de critérios para construir a paz e resolver conflitos”, pontuou Rowlands.