Terça-feira, 25 de junho de 2024

Proibida e perigosa, “cura gay” preocupa, e discussão chega ao Congresso

O psicólogo Héder Bello, de 37 anos, passou boa parte de sua juventude tentando deixar de ser quem é. Durante 13 anos, fez sacrifícios diversos para “abandonar” sua homossexualidade. Seguindo um roteiro conhecido por muitos da comunidade LGBTQIA+, entrou para um ministério da igreja evangélica que promovia retiros espirituais com dias de silêncio e pregava a renúncia aos pecados. Foi obrigado a jejuar e a cumprir práticas de autoflagelo, como se ajoelhar sobre objetos cortantes. “Uma vez fiquei três dias sem comer e desmaiei. Em vez de me socorrerem, acharam que era uma manifestação demoníaca e fui submetido a exorcismo”, lembrou Bello, que hoje se intitula um sobrevivente da “cura gay”.

Como a conversão não foi positiva, a igreja encaminhou Bello a um psicólogo, indicado por eles e “alinhado” para evitar “uma cilada do diabo”. A psicóloga, mais tarde, viria a ter seu registro suspenso pelo Conselho Federal de Psicologia. Bello ouviu dela que, em seu caso, uma das opções era eletrochoque.

Recentemente, a influenciadora de direita Karol Eller, de 36 anos, tirou a própria vida pouco depois de passar por um retiro espiritual, no interior de Goiás, e publicar em suas redes sociais que iria deixar de ser lésbica: “renunciei à prática homossexual, vícios e desejos da minha carne para viver em Cristo!”, escreveu. Antes de morrer, outra mensagem: “perdi a guerra”.

Pensamentos suicidas e tentativas de tirar a vida não são incomuns entre aqueles submetidos a violências psicológicas e físicas por sua sexualidade. Depois de deixar a igreja e assumir sua existência, Bello se formou em psicologia, virou pesquisador na UFRJ e se dedicou a ouvir sobreviventes da “cura gay”, cujos depoimentos foram reunidos em livro lançado pelo Conselho Federal de Psicologia.

Ele conta que retiros religiosos como o que Karol Eller frequentou são bastante disseminados no Brasil, e foram inspirados num modelo nascido na Colômbia, conhecido como Encontro com Deus, popular nas igrejas evangélicas a partir dos anos 2000.

“A busca pela cura gay não é voluntária. Passamos a vida por um processo maniqueísta e manipulador que diz que isso é errado, pecado, doença, desvio, problema, maldição. As pessoas não querem deixar a homossexualidade, mas sim o peso do que o fundamentalismo religioso diz que ser gay é”, afirmou Bello.

Investigação

Os deputados federais do PSOL Erika Hilton (SP), Pastor Henrique Vieira (RJ) e Luciene Cavalcante (SP) acionaram o Ministério Público Federal (MPF) pedindo uma investigação da igreja em Goiás onde Karol Eller supostamente passou por um retiro de “cura gay”.

“A chamada cura gay é uma violência sem base científica e que promove uma espécie de tortura psíquica. Dentro da concepção fundamentalista, a condição leva à condenação eterna, abominação, ao inferno. Imagina a pessoa viver lutando contra o que ela é. É profundamente adoecedor. Não podemos normalizar isso”, afirmou Henrique Vieira, que avalia outros meios legislativos de ampliar o debate.

Ele está em contato com a deputada Luizianne Lins (PTCE), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara, para criar um grupo de trabalho e entregar um relatório sobre o tema em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

No dia 19, a deputada federal Erika Hilton apresentou um projeto de lei para equiparar processos de conversão sexual a tortura, que passaria a ser considerado crime inafiançável com pena de dois a oito anos de reclusão.

Práticas religiosas

O psicólogo Josué de Castro Filho, doutor em ciências pela USP, pesquisou a prática ofertada pelas igrejas. No mestrado, estudou homossexuais que abandonaram as igrejas por conta da rejeição. No doutorado, investigou os que decidiram ficar. Segundo Filho, pouquíssimos dos que permanecem mantêm o discurso “perigoso” de que Deus fez um milagre em suas vidas e, por isso, não sentem mais atração homoerótica. A renúncia da sexualidade ainda é um grande sacrifício.

O antropólogo Juliano Spyer, fundador do Observatório Evangélico, ressalta que a condenação da homossexualidade não é exclusiva da igreja evangélica. Religiosos fundamentalistas, diz ele, usam trechos bíblicos específicos para disseminar preconceito. Ele observa que as igrejas evangélicas, inclusive, são plurais, indo de um espectro mais conservador até o progressista:

“Quando falamos no protestantismo, que são milhares de igrejas, a lógica é: “não gostou, abre outra”. Em algumas igrejas, a proibição é mais velada. O gay pode ir, mas não pode chegar de mãos dadas com o companheiro. Outras, por sua vez, são inclusivas”, relatou.

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