Terça-feira, 23 de julho de 2024

Reação contra a disparada de preços contamina economia e dificulta ação do Banco Central

A forte resistência da inflação, na casa de dois dígitos em 12 meses desde setembro de 2021, acendeu o sinal de alerta para o aumento da inércia inflacionária. Essa inércia, que é a inflação do passado recente pesando sobre os preços atuais e futuros, dificulta o trabalho do Banco Central de segurar o repasse, mesmo subindo juros.

“Infelizmente, estamos carregando bastante essa inflação do passado para o presente”, afirma o economista da LCA Consultores Fábio Romão. Vários fatores têm contribuído para isso. Um deles é a inflação ter encerrado 2021 acima de 10%, o que faz dessa marca um parâmetro para os reajustes. Também há forte pressão de preços vinda do atacado para o varejo. E o descasamento das cadeias produtivas globais, agravado pela guerra na Ucrânia, dificulta a marcação de preços.

Boa parte da resistência da inflação, que em 12 meses até abril atingiu 12,1%, segundo o IPCA, foi alimentada pela indexação formal. São reajustes que seguem contratos, como aluguel, escola e plano de saúde, ou são autorizados pelo governo (combustível, energia).

Romão mediu o impacto da indexação formal na inflação e constatou que, na pandemia, o peso aumentou dois pontos porcentuais. Em dezembro de 2019, respondia por 32,05% do IPCA e, em abril de 2022, já era de 34,15%. Preços monitorados responderam por 50% do aumento, com destaque para gasolina, diesel e eletricidade.

Informal

Outra parte da resistência da inflação resulta da indexação informal, que turbina preços pelos aumentos de custos incorridos. É o caso do funileiro Vinicius Aguirre, que reajustou de R$ 350 para R$ 400 o valor por peça restaurada, pois a tinta automotiva, um derivado do petróleo, subiu. “A minha indexação é em função da tinta, que é o que mais onera.”

Outro fator que pesa nesse jogo é a expectativa. “Se agentes percebem que o BC está com dificuldade de cumprir a meta (de inflação), eles aumentam preços, antes de a inflação bater nos custos”, diz o coordenador de índices de preços da FGV, André Braz.

Indexação é um mecanismo de defesa contra a perda do poder de compra do dinheiro. “Quanto maior a inflação – e a de dois dígitos assusta –, é claro que há um incentivo ao aumento da indexação, seja formal ou informal”, afirma Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria. Por causa do passado de hiperinflação no Brasil, esse mecanismo talvez seja mais forte, observa.

Espalhamento

Para Romão, o espalhamento da inflação é a prova de que as pressões de preços por conta da indexação informal aumentaram. Em abril, 78,75% dos itens do IPCA tiveram variação positiva, resultado recorde. O movimento, segundo ele, é mais visível nos serviços. E esses reajustes ganham sinal verde neste momento em que o brasileiro opta por consumir mais serviços do que bens.

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