Sábado, 25 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 24 de abril de 2026
Por mais de duas décadas, a terapia hormonal da menopausa foi vista com receio por causa dos resultados do estudo Women’s Health Initiative (WHI), publicado em 2002, que associou a reposição hormonal ao aumento de risco cardiovascular e de câncer de mama. Com o tempo, reanálises do próprio trabalho e novos estudos indicaram que os desfechos variam conforme a idade, o momento de início do tratamento, o tipo de hormônio recebido, a dose e a via de administração. Esse entendimento levou a FDA (Food and Drug Administration), agência dos Estados Unidos similar à Anvisa, a rever recentemente a tarja preta de alerta aplicada desde 2003, flexibilizando o aviso de risco em algumas formulações.
Essa mudança, no entanto, tem sido usada por alguns profissionais como argumento para ampliar a prescrição de testosterona para mulheres, hormônio que não faz parte do tratamento padrão e pode trazer prejuízos à saúde.
Segundo o endocrinologista Clayton Macedo, coordenador do ambulatório de endocrinologia do exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos idealizadores da campanha “Bomba tô fora”, trata-se de uma distorção perigosa. “A testosterona entrou de carona nessa história. A revisão da FDA foi sobre o uso de estrogênio e progesterona. Usar isso como argumento para ampliar a indicação de testosterona é fazer mau uso da informação e colocar as mulheres em risco”, alerta ele, que também é diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
Os perigos não são desprezíveis: a testosterona pode causar efeitos adversos, como alterações do colesterol, hipertensão, arritmias, infarto, embolia, aumento de pelos, queda de cabelo, engrossamento da voz, aumento do clitóris, resistência à insulina e, em doses muito altas, possíveis alterações hepáticas.
Como é a terapia hormonal da menopausa
Segundo os especialistas ouvidos pelo Estadão, quando se fala em terapia hormonal da menopausa, o eixo central é a reposição do estrogênio, hormônio cuja queda provoca os sintomas típicos dessa fase: ondas de calor (fogachos), insônia, alterações de humor e perda óssea. A progesterona também pode ser indicada, mas apenas para proteger o endométrio nas mulheres que têm útero. “Esse é o tratamento que foi amplamente estudado. A indicação deve ser individualizada, levando em consideração a idade da mulher, o tempo de menopausa e a avaliação criteriosa de riscos e benefícios”, afirma a ginecologista e nutróloga Alessandra Bedin Pochini, do Einstein Hospital Israelita.
A testosterona até pode fazer parte da terapia de reposição hormonal, mas apenas em situações muito específicas. A única indicação é diante de um quadro chamado desejo sexual hipoativo: trata-se da mulher que perdeu o interesse e o pensamento sobre atividade sexual por um período prolongado e sofre com essa situação, sentindo desconforto ou insatisfação.
E, ainda assim, a testosterona só é indicada depois de tratar outras possíveis causas da diminuição da libido, entre elas a depressão, obesidade, síndrome urogenital e até problemas de relacionamento do casal.
“É fundamental diferenciar as situações. Há mulheres na menopausa com pouca ou nenhuma atividade sexual que estão confortáveis assim, sem sofrimento. Nesses casos, não há indicação de tratamento. A testosterona só deve ser considerada quando a falta de desejo é persistente e provoca impacto real na qualidade de vida”, afirma Lucia Helena Simões da Costa Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
“A testosterona não integra o tratamento padrão da menopausa. Sua indicação é bastante específica e restrita ao transtorno do desejo sexual hipoativo, após diagnóstico adequado e, em geral, em mulheres que já estão em uso de estrogênio”, reforça a médica.
Uso de testosterona avança
Mesmo com todas essas ressalvas, profissionais têm divulgado o uso do hormônio com promessas de mais energia, emagrecimento, aumento da libido, ganho de massa muscular e melhora estética – todas indicações ainda sem comprovação científica, sem evidências consistentes e sem respaldo de diretrizes internacionais e sociedades médicas da área.
Inclusive, já é preciso acender o sinal de alerta caso um profissional solicite um exame de dosagem de testosterona. Em dezembro de 2025, a Sbem, a Febrasgo e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) emitiram uma nota conjunta reforçando que não existe indicação para dosar o hormônio em mulheres. As entidades também alertaram para os riscos do uso inadequado da substância.
“O uso da testosterona por mulheres não possui aprovação formal específica, sendo frequentemente utilizada de forma off label (fora da indicação prevista em bula). A revisão regulatória da FDA sobre o uso de estrogênio não modifica esse cenário, não amplia a indicação de testosterona nem altera o fato de que seu uso deve ser excepcional, criterioso e baseado em indicação clínica bem definida”, afirma Bedin.
Para os especialistas, o ponto mais importante da discussão não é a revisão da terapia hormonal da menopausa em si, mas a forma como essa informação vem sendo utilizada. “A banalização da indicação é o ponto ético. A testosterona é uma terapia de exceção. O que estamos vendo é a transformação da terapia hormonal da menopausa em um guarda-chuva para justificar hormônios com finalidade de performance, estética ou antiaging. Isso nos afasta da medicina baseada em evidências e nos aproxima de um modelo orientado pelo mercado, um comércio disfarçado de cuidado”, ressalta Macedo.
Os médicos alertam que a terapia hormonal da menopausa não é carta branca para recorrer a qualquer hormônio. Quando bem indicada, com estrogênio em dose adequada e via apropriada (oral, transdérmica ou vaginal, conforme o perfil da paciente), ela pode melhorar significativamente a qualidade de vida. “Promessas de energia, shape e juventude não são justificáveis”, conclui Macedo.