Terça-feira, 07 de dezembro de 2021

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Roberto Jefferson preparou o PTB para Bolsonaro e foi ignorado: ativista diz que governo “decepcionou conservadores”

Roberto Jefferson passou o último ano reestruturando o partido que comanda com mãos de ferro, o PTB, para atrair o presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores — reformulou o estatuto para uma linha mais conservadora, expurgou lideranças históricas nos estados e arranjou briga até com a filha por divergências quanto ao uso medicinal da cannabis.

Preso desde agosto, ele, no entanto, recebeu dois golpes: na quarta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes o afastou por seis meses do comando da sigla por mau uso do fundo partidário; e, sem mudar uma vírgula do estatuto ou afastar dirigentes, o PL, partido proeminente do Centrão, é o mais próximo hoje de receber Bolsonaro — a filiação chegou a ser marcada para o dia 22, mas foi adiada para que impasses nos estados sejam resolvidos. “Tem muita gente chateada com o Bolsonaro no PTB”, resumiu um integrante da legenda.

Antes de ir para a cadeia, Jefferson chegou a ter pelo menos dois encontros com o presidente no Planalto para falar sobre a filiação partidária. E, no início de outubro, quando estava internado — e preso — num hospital no Rio, ele recebeu a visita de Waldir Ferraz, um dos amigos mais antigos de Bolsonaro.

“Fui falar que ele estava pegando pesado com os ministros (do STF)”, disse Ferraz.

Ele garantiu que foi por iniciativa própria, mas pessoas do entorno de Jefferson interpretaram a visita do aliado do presidente como um recado do próprio.

Algumas semanas depois, já de volta à cadeia, Jefferson escreveu em uma carta afirmando que Bolsonaro “fraquejou” ao não avançar nas demandas do “povo que foi às ruas” no dia 7 de setembro e o criticou por cercar-se de “viciados em dinheiro público”, citando Valdemar Costa Neto, presidente do PL.

O sentimento de “abandono” é compartilhado por outros bolsonaristas — ou ex-bolsonaristas, caso da ativista Sara Giromini, que teve cargo de coordenadora no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, e organizou acampamentos em defesa do presidente em Brasília.

“Eu me decepcionei demais com o Bolsonaro. O governo dele foi uma grande ilusão para os conservadores. Eu tenho vergonha de quando saía na rua gritando ‘mito’”, lamenta Sara, que se queixa também da falta de apoio quando foi presa (pelo STF) após uma série de ataques à Corte. “Nós recebíamos diretrizes diretas do Planalto. A Carla Zambelli e a Bia Kicis (deputadas) diziam em quem a gente deveria bater ou não. Tínhamos certeza que, se acontecesse alguma coisa, teríamos um respaldo legal, jurídico e econômico. O que aconteceu foi o contrário.”

Outro integrante do grupo é o blogueiro Oswaldo Eustáquio, que também foi preso pelo STF por ter praticado atos antidemocráticos. Eustáquio, no entanto, diz que não se sentiu abandonado pelo Bolsonaro (“ele fez o que podia”), mas por alguns integrantes do seu governo como a ministra Damares Alves.

Nesse perfil, também se enquadra o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que confidenciou a pessoas próximas o desalento pela falta de apoio de colegas bolsonaristas, mas continua se declarando um apoiador fiel do presidente. Após ficar quatro meses preso, ele saiu da cadeia na manhã da última terça-feira e atendeu ao pedido do governo para votar à tarde a favor da PEC dos Precatórios, que foi aprovada em segundo turno na Câmara com 323 dos 308 votos necessários.

“Ele (Bolsonaro) fez tudo o que estava ao alcance”, disse em entrevista à Rádio Jovem Pan.

A prisão de Silveira foi ratificada pelo plenário da Câmara dos Deputados com muito mais folga do que a PEC —364 votos dos 257 necessários —, o que incluiu 32 votos favoráveis do PL, provável destino de Bolsonaro.

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