Segunda-feira, 17 de junho de 2024

Saiba o que explica o amor dos britânicos pela sua monarquia

A morte de Elizabeth 2ª encerra uma era. Em seu reinado de 70 anos, ela testemunhou uma tremenda mudança social. De muitas maneiras, o Reino Unido de hoje tem pouca semelhança com aquele país do pós-guerra. Passou de uma sociedade conservadora e tradicional a um país diverso.

Mas a monarquia, no entanto, um sistema baseado na herança de poder e privilégio, continua mantendo uma popularidade constante: 62% dos britânicos o apoiam como sistema político, de acordo com uma pesquisa do YouGov de junho.

O próprio Charles 3º, que até agora não era um dos membros da família real preferidos pelos britânicos, sentiu o efeito da coroa: sua popularidade dobrou desde que se tornou rei.

Isso se reflete claramente na fila quilométrica de cidadãos que se formou para dar seu último adeus à rainha.

Em uma nação que não tem feriado nacional, os compromissos reais como os jubileus ou os aniversários do monarca assumiram esse espaço de exaltação da identidade britânica, da sua idiossincrasia, daquilo que os diferencia do restante do mundo, apontam especialistas.

A associação entre a monarquia e os britânicos atinge seu auge com a morte de Elizabeth 2ª, quando uma nação enlutada celebra a vida de sua rainha e, ao mesmo tempo, sua própria história.

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“Os britânicos valorizam o fato de ter um chefe de Estado diferente e separado da política cotidiana”, diz o constitucionalista Craig Prescott, professor da Universidade de Bangor, no País de Gales.

Enquanto a Câmara dos Comuns pode se tornar um lugar brutal, e o confronto e a tensão política acabam gerando desconforto entre os cidadãos, a monarquia, argumenta o especialista, é geralmente apresentada como uma figura unificadora, representando todos os britânicos.

“A isso se soma a maneira como Elizabeth 2ª desempenhou suas tarefas desde 1952 e sua dedicação. Ela foi uma monarca muito popular, até muitos republicanos concordam que ela fez um ótimo trabalho”, acrescenta Prescott.

Para a socióloga Laura Clancy, a monarquia manteve um apoio estável ao longo dos anos por três motivos principais. “Primeiro, há uma forte associação com identidade nacional, história e nostalgia, com foco em monarcas.”

Além disso, “os britânicos desenvolveram uma forte afeição por certos membros da família real, principalmente a rainha”.

E, finalmente, “a monarquia soube se projetar muito bem na mídia, apresentando uma ideologia particular ao público, como os valores família, caridade, ideias de serviço e dever”, argumenta Clancy.

As razões republicanas

A monarquia, no entanto, não está isenta de críticas, apesar de o peso do republicanismo no Reino Unido pouco ter mudado nas últimas décadas.

Em 1969, 18% dos britânicos se consideravam republicanos. Esse número hoje chega a 22%, segundo dados da Ipsos Mori. Entre as gerações mais jovens, no entanto, sobe para 31%, segundo dados do YouGov.

Para Prescott, “a questão é se esses jovens continuarão sendo republicanos quando crescerem ou se mudarão de ideia”.

Um dos principais argumentos contra a monarquia é que “em princípio, ela não é democrática”, argumenta Graham Smith, presidente do Republic, talvez o principal grupo que defende uma mudança de sistema no Reino Unido.

“A instituição não serve para o propósito, é corrupta, abusa do dinheiro público e faz lobby por seus próprios interesses”, diz Smith.

Sua organização, que busca realizar um referendo para que os britânicos possam escolher seu sistema de governo, planeja uma campanha de protestos pela coroação de Charles 3º, que deve ocorrer no próximo ano.

Outra crítica recorrente à instituição monárquica é o seu custo. Calcular finanças reais não é fácil. O Subsídio Soberano, o orçamento público que é repassado todos os anos à família real para administrar suas despesas de representação, ultrapassou US$ 100 milhões (R$ 525 milhões) este ano.

Em troca, dizem os defensores, a família real se tornou uma grande atração turística, gerando uma receita significativa.

O Republic discorda. “A monarquia não traz nenhum dinheiro para o país, qualquer estimativa do dinheiro que eles supostamente contribuem é completamente enganosa. No entanto, custa-nos 345 milhões de libras por ano (US$ 2,1 bilhões)”, critica Smith, em cujo cálculo ele inclui outras despesas, como segurança (não incluída no Subsídio Soberano).

Para Clancy, que escreveu Running the family Firm: How the monarchy manages his image and our money (“Administrando o negócio da família: como a monarquia gere sua imagem e nosso dinheiro”, em tradução livre), “a instituição consagra um sistema de desigualdade e servilismo”.

O passado imperial e colonial da Coroa também está sob ataque, algo que, de acordo com Prescott, “o novo rei e príncipe de Gales terão que resolver”.

Os escândalos das últimas décadas, incluindo o do príncipe Andrew, processado por abuso sexual, ou o afastamento do príncipe Harry e sua esposa Meghan da família real, “prejudicaram muito a monarquia e geraram muito mais debate sobre o porquê da monarquia”, argumenta Smith.

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