Terça-feira, 28 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de julho de 2026
A secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Lisiane Lemos, participou, na manhã desta terça-feira (28), de um encontro na agência Escala, em Porto Alegre. Durante a conversa com profissionais de comunicação, marketing e tecnologia, ela abordou o uso de dados e inteligência artificial, os riscos da reprodução de preconceitos pelos algoritmos e a necessidade de manter as pessoas no centro das decisões.
Com passagens por empresas como Microsoft e Google, além da experiência no setor público, Lisiane defendeu que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado de interpretação crítica, diversidade e responsabilidade. “Dados hoje, para mim, não são apenas sobre técnica. São sobre poder: quem é visto, quem é invisível e quem é considerado nas decisões”, afirmou.
Segundo a secretária, o crescimento do volume de informações disponíveis não significa, necessariamente, uma compreensão mais profunda sobre os indivíduos. Os dados podem revelar hábitos de consumo, preferências e comportamentos, mas não contam, sozinhos, toda a história de uma pessoa.
Nesse sentido, ela alertou para o risco de empresas, governos e agências de comunicação tomarem decisões baseadas somente nos rastros digitais deixados pelos consumidores. Parte da população, especialmente idosos e moradores de regiões com menor conectividade, pode ficar fora dessas análises.
Diversidade na construção das soluções
Lisiane destacou que sistemas de inteligência artificial são treinados a partir de informações e padrões existentes na sociedade. Quando as bases de dados carregam desigualdades históricas, os modelos tecnológicos também podem reproduzir discriminações relacionadas a gênero, raça, idade, território ou condição social.
Para enfrentar o problema, a secretária defendeu a participação efetiva de pessoas com diferentes experiências na criação de produtos, campanhas e políticas públicas. “Não basta colocar uma pessoa diferente na mesa apenas como figuração. É necessário que ela tenha voz e possa provocar desconforto intelectual, fazendo com que a organização enxergue aquilo que antes não conseguia enxergar”, observou.
Ela também recomendou a realização de testes em ambientes controlados e análises éticas das bases utilizadas pelas empresas. Em sua avaliação, a qualidade e a representatividade dos dados devem ser consideradas antes da velocidade de lançamento de uma nova solução. “A qualidade do dado é mais importante do que a velocidade do dado”, resumiu.
A experiência da inclusão digital
Ao recordar sua atuação anterior à frente da Secretaria Extraordinária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade, Lisiane explicou que uma das principais descobertas foi a importância do atendimento presencial.
Inicialmente, segundo ela, foram realizadas tentativas de oferecer cursos on-line para públicos que enfrentavam dificuldades no uso da tecnologia. O formato, porém, não apresentou os resultados esperados.
“A inclusão digital se faz no presencial. Precisávamos de centros de tecnologia onde pessoas ensinassem outras pessoas a utilizar o celular, acessar serviços e compreender as ferramentas digitais”, relatou.
A experiência deu origem a iniciativas como o projeto Comunidades Inovadoras, que instalou laboratórios tecnológicos em territórios considerados vulneráveis. A proposta é oferecer formação, acesso a equipamentos e oportunidades de desenvolvimento profissional. Lisiane também mencionou projetos de incentivo ao empreendedorismo feminino e ações de capacitação antirracista promovidas pelo Governo do Estado.
Comunicação deve considerar a realidade de cada público
A secretária ressaltou que o Rio Grande do Sul possui características demográficas e territoriais próprias. Grande parte dos municípios gaúchos tem uma população reduzida, enquanto o Estado apresenta participação crescente de pessoas com mais de 60 anos.
Essa realidade, segundo ela, exige estratégias de comunicação que não sejam construídas exclusivamente para os ambientes digitais. Lisiane relatou que, ao retornar ao Estado depois de uma década trabalhando em São Paulo, precisou compreender novamente a importância do rádio, da televisão aberta, do jornal, do Facebook e da comunicação pessoal nas pequenas comunidades.
“Para desenvolver políticas tecnológicas, tivemos que reaprender a nossa forma de comunicação. Nem toda solução pode partir do pressuposto de que todas as pessoas possuem internet de qualidade, equipamentos modernos ou familiaridade com as plataformas”, explicou.
Lisiane defendeu a integração entre televisão, rádio e plataformas digitais, considerando que o consumidor utiliza diferentes telas simultaneamente.
“Acho que não existe um mundo em que tudo precise ser 100% digital. O comunicador deve ter presença digital, mas também precisa estar na comunicação de massa. O desafio será mensurar essa jornada de ponta a ponta e desenvolver uma integração multiplataforma”, afirmou.
Limites éticos no uso das informações
Outro ponto discutido foi a utilização de dados sobre emoções, fragilidades e momentos de vulnerabilidade dos consumidores. Lisiane alertou que tecnologias capazes de identificar ansiedade, urgência, luto ou dificuldades financeiras podem ser usadas para estimular decisões de compra. Por isso, empresas e profissionais de comunicação terão que estabelecer limites claros.
“Será que vamos utilizar a fragilidade do consumidor para vender mais ou vamos construir uma relação de confiança no longo prazo? São decisões éticas que teremos que tomar como sociedade”, questionou.
A secretária também chamou atenção para a segurança das informações. Segundo ela, muitas organizações investem em inteligência artificial, mas ainda negligenciam práticas básicas, como senhas seguras, proteção de telas e cuidados ao tratar de assuntos confidenciais em ambientes públicos.
Transformação começa pelas pessoas
Na avaliação de Lisiane, a contribuição mais relevante das empresas para a transformação social não está apenas no apoio a projetos externos, mas também na criação de oportunidades profissionais.
A contratação e a preparação de pessoas negras, mulheres, idosos, profissionais neurodivergentes e talentos provenientes de universidades ou territórios não tradicionais podem produzir mudanças duradouras. Ela reconheceu que liderar equipes diversas exige adaptação, novas metodologias e disposição para aprender.
“Ter um time diverso é uma maravilha e, ao mesmo tempo, é difícil. As pessoas possuem idades, experiências e formas de aprendizagem diferentes. Mas essa diversidade é uma das principais chaves para o sucesso”, declarou.
Ao encerrar sua participação, Lisiane incentivou os profissionais presentes a reservarem tempo para aprender, testar novas ferramentas e compartilhar conhecimento.
“Ninguém sabe exatamente tudo o que está fazendo. A tecnologia ainda está sendo desenvolvida e todos estamos aprendendo. Precisamos experimentar, trocar ideias e ficar intelectualmente desconfortáveis, sempre orientados pelos nossos valores”, concluiu.
Roberta Selister (E), da Escala, e a secretária Lisiane Lemos (Foto: Divulgação)