Sábado, 12 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de setembro de 2026
Se eu desconhecesse os fatos e me contassem como aconteceu, eu não iria acreditar. O Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o fórum capaz de mediar e resolver os impasses políticos e institucionais que, vez em quando assolam o Brasil, se transformou ele mesmo no centro da crise.
Como podem os guardiões da lei e da defesa do pacto constitucional terem se degradado tanto? Mesmo aqueles membros do tribunal que se mantêm incólumes, sobre os quais não pairam suspeitas, se mostram tímidos e silentes diante das lambanças em curso.
No centro da espiral que nos envolve e paralisa, está o senhor Ministro Alexandre de Moraes. Esse homem, que teve uma atuação exemplar no processo que julgou os culpados – ao menos uma parte deles – pela intentona golpista de 8 de janeiro de 2023, em algum momento da jornada, se desviou dos postulados republicanos e enveredou pelo caminho das malfeitorias.
Já no final daquele processo rumoroso Moraes havia demonstrado certa falta de medida ao aplicar penas exorbitantes aos infortunados que os braços da lei puderam alcançar. A parcimônia, a contenção, é uma virtude dos justos, não o rigor draconiano.
Parece ter se dado prêmio e licença pela condução do procedimento que levou à cadeia centenas de patriotas arruaceiros, mais arruaceiros do que patriotas. Assim, se concedeu fazer negócios à parte da Corte Suprema, fosse através dele mesmo ou de sua mulher Viviane, também advogada.
Mas estas coisas, em países onde vigora a liberdade de imprensa, de uma fenda qualquer, vêm à tona. E se fez a sua desgraça.
Antes disso ele já vinha às turras com o ministro André Mendonça, bolsonarista de carteirinha, voluntarioso, meio sorrateiro e disposto a tudo, fosse para aparecer como o novo herói nacional, depois de Joaquim Barbosa, Sérgio Moro, o próprio Moraes, fosse para cumprir desígnios da sua convicção política.
Mas aquelas alturas já ecoavam as críticas de todo jurista sensato, todo democrata não polarizado, exibidas em todas as frentes, da excrescência que era o inquérito das Fake News – que teve começo, mas não tinha fim, e no qual tudo que desagradasse a ele, Moraes, podia ser enquadrado.
Tudo virou café pequeno quando veio a público que o ministro do STF, nas horas vagas e na calada da noite, era uma espécie de conselheiro do banqueiro pilantra, Daniel Vorcaro, do Banco Master, em troca de honorários estratosféricos, pagos através da doutora Viviane.
Isso já era do conhecimento público e Moraes já estava na berlinda. Mas André Mendonça jogou querosene no fogo e deixou divulgar novos diálogos de Moraes com Vorcaro, que não apenas confirmou as anteriores denúncias, como as tornou ainda mais devastadoras.
A resposta de Moraes foi constrangedora. Sacou do coldre a arma supostamente definitiva, incluiu no indefectível inquérito das Fake News o próprio Mendonça, sob várias acusações, às quais, entretanto, faltava um grau mínimo de fundamentação.
Alexandre de Moraes será lembrado não no papel que ele parece ter imaginado para si, de salvador da democracia, pela sua atuação (de fato) valorosa no 8 de janeiro, mas do homem que sucumbiu às ciladas do diabo.
(titoguarniere@terra.com.br)