Segunda-feira, 25 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 25 de maio de 2026
Aos seis anos de idade, depois da separação dos meus pais, nos anos 70, fui morar na Vila Brasília, no bairro Sarandi, em Porto Alegre. Hoje, o lugar está urbanizado e muito diferente daquele cenário que guardo na memória.
Era um Brasil que muitos leitores da minha geração vão reconhecer imediatamente. Telefone fixo era coisa de gente rica. Televisão colorida era um luxo distante, que a gente improvisava com papel celofane.
Ter uma geladeira, um fogão funcionando, uma televisão em preto e branco e um toca-discos velho já era sinal de que a família estava um pouco melhor do que a maioria. Comprava-se fiado no armazém da esquina e no açougue. As ruas não tinham asfalto e, quando chovia, o barro tomava conta de tudo.
Aos nove anos, cheguei a empurrar um carrinho de picolés pelas ruas asfaltadas da Vila Elizabeth, em busca de uns trocados, enquanto minha mãe trabalhava no Hospital Militar. A vida não era fácil, mas a infância acontecia…
Lembro do Bombril preso à antena da televisão para melhorar o sinal. Das pipas cortando o céu. Das bolinhas de gude disputadas como troféus. Dos campinhos improvisados onde jogávamos futebol até no barro, quando chovia…
Naquele tempo as amizades eram construídas na rua, e “preconceito” não fazia parte do nosso vocabulário. Eu tinha amigos da Vila Brasília e amigos da escola. O Tatau e o Pita, por exemplo, eram quase irmãos e moravam praticamente ao lado da minha casa.
Vivíamos juntos nos campinhos de barro, nas ruas da vila e nas aventuras que só uma infância simples consegue produzir. Anos mais tarde, o Pita ingressaria na Brigada Militar, e o Tatau seguiria a vida trabalhando na área de vendas.
Mas essa história aqui é sobre o Batata… Ele não morava tão perto quanto o Tatau e o Pita, mas fazia parte da turma. Já o Odoni, o Ciro e o Marco Aurélio, o Guinho, eram amigos da escola Major Miguel José Pereira. Tinham condições melhores que as nossas e moravam na Vila Elizabeth.
Quando a bola rolava, desapareciam as diferenças, pois éramos apenas guris e não conhecíamos o preconceito. O Odoni era um craque de futebol. Anos depois, eu ainda cruzaria com ele trabalhando como promotor de vendas.
O Marco Aurélio, vulgo Guinho, talvez tenha sido meu melhor amigo daquela época. Infelizmente, um acidente de moto mudou o destino dele.
Mas quando penso em talento perdido, fatalmente me lembro do Batata. Com a bola nos pés, não importava quem estivesse na frente dele. Não importava o tamanho ou a idade. Ele simplesmente driblava. Os dribles eram quase humilhantes e desconcertantes, como se fosse um mini Pelé. Fosse no barro ou no gramado, não tinha para ninguém.
Mas não foi apenas por causa do futebol que ele ficou guardado na minha memória. Houve um episódio que nunca esqueci. Um dia desapareceu de casa uma bermuda da Adidas que eu havia ganhado de um tio. Naquela época, aquilo era um verdadeiro troféu. Até ela sumir.
Algum tempo depois, descobri que quem estava com ela era o Batata, que tinha acesso direto à minha casa. Fui até lá decidido apenas a recuperar o que era meu. Sua mãe me recebeu com carinho e me deixou entrar direto no quarto da casa extremamente humilde. Quando cheguei, encontrei o Batata segurando e olhando para a bermuda.
Não era culpa. Nem felicidade. Talvez as duas coisas. Fiz barulho de propósito para que ele percebesse minha chegada e tivesse tempo de escondê-la. Aquele olhar não me deixou com raiva. Me deixou pensativo. Agimos como se nada tivesse acontecido.
Quando já estava indo embora, disse: “Cara, eu sei que tu não tem muitas roupas. Lá em casa tenho duas bermudas e duas camisetas que posso te dar. Mas faz o seguinte… leva aquela bermuda da Adidas que eu te emprestei e esqueceu de devolver. Amanhã, passa lá em casa que eu te entrego o resto”.
Ele não precisou admitir nada. Eu não precisei acusar ninguém. No dia seguinte, a bermuda apareceu e fizemos a troca. O assunto morreu ali. Mas a lembrança ficou.
Com o tempo, muitos construíram famílias e venceram suas batalhas. Mas lembro dos meus últimos anos na vila, quando percebi que algo começava a mudar ao nosso redor.
A adolescência trouxe outras influências. E, com isso, algumas mudanças. Garotos começaram a desaparecer dos campinhos. Um morreu durante um assalto. Outro acabou preso. Outro levou um tiro numa briga.
As conversas deixaram de ser sobre futebol e passaram a girar em torno de dinheiro fácil, roupas da moda e outros bens. Foi quando percebemos que o ambiente influencia mais do que gostamos de admitir. Então, decidimos sair dali, mesmo que para morar de aluguel, e explorar outros horizontes…
Quando lembro do Batata, não lembro apenas o episódio da bermuda. Lembro da bola… Lembro do talento. Lembro da facilidade absurda que ele tinha para fazer algo que parecia impossível para o resto de nós.
E me pergunto: onde aquilo se perdeu? Todos nós conhecemos alguém que parecia destinado a algo extraordinário. O jogador que nunca chegou aos estádios. O músico que nunca gravou sua canção. O empreendedor que nunca abriu o negócio. O artista que nunca mostrou sua obra ao mundo.
Pessoas que carregavam algo especial, mas ficaram pelo caminho. Porque a vida ensina uma verdade difícil: talento abre portas, mas não atravessa nenhuma delas sozinho. De vez em quando, quando a memória resolve visitar os campinhos de barro da Vila Brasília, eu volto a ver o Batata correndo com a bola nos pés.
E penso… O que aquele menino poderia ter se tornado? Talvez eu nunca descubra.
Por fim… Eu não me tornei médico. Não me tornei empresário rico. Não me tornei astronauta, nem jogador de futebol. Mas Deus me deu algo diferente. A capacidade de contar as histórias daqueles que foram esquecidos pelo tempo.
E, talvez, essa também seja uma forma de impedir que essas vozes desapareçam para sempre deste mundo…
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho