Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de maio de 2026
O técnico da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti, costuma citar a experiência que teve no Carnaval do Rio de Janeiro ao falar sobre futebol. Para o italiano, a combinação entre criatividade, ginga e disciplina representa um dos segredos do futebol brasileiro. Ancelotti, que assumiu a seleção em 2025, acompanhou no Sambódromo da Marquês de Sapucaí a primeira noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial deste ano e saiu impressionado com o espetáculo.
O desfile mais elogiado da noite foi o da Imperatriz Leopoldinense, que apresentou o enredo “Camaleônico”, homenagem ao cantor Ney Matogrosso. O tema acabou servindo também como definição do perfil de Ancelotti, conhecido justamente pela capacidade de adaptação a diferentes estilos e contextos ao longo da carreira.
Apelidado de “Carletto”, o treinador construiu sua trajetória sem se prender a um único modelo de jogo. Enquanto o futebol europeu foi marcado por filosofias rígidas, como o jogo de posse de Pep Guardiola, a postura defensiva de José Mourinho e a pressão intensa de Jürgen Klopp, Ancelotti acumulou títulos ajustando suas equipes às características dos jogadores disponíveis.
“Meu estilo é vencer”, costuma dizer o treinador, em uma frase que mistura simplicidade e confiança.
Nos últimos dias, os brasileiros perceberam que essa flexibilidade vai além das questões táticas. E foi justamente isso que abriu espaço para a convocação de Neymar.
Até poucos dias antes da divulgação da lista final para a Copa do Mundo, pessoas próximas ao treinador consideravam improvável a presença do camisa 10 entre os convocados. O entendimento era de que Neymar, em razão do histórico recente de lesões e da condição física, não fazia parte do planejamento técnico. Também existiam dúvidas sobre seu impacto dentro do grupo.
No entanto, diante da pressão popular, da repercussão na imprensa e de manifestações públicas de jogadores favoráveis ao retorno do atacante, Ancelotti decidiu incluí-lo na convocação. O atacante João Pedro, de 24 anos, chegou a defender publicamente a presença de Neymar, mas acabou ficando fora da lista.
“Futebol não é uma ciência exata”, afirmou Ancelotti ao justificar a decisão.
“Na medicina, o médico consegue dizer o que é certo ou errado. No futebol, não funciona assim”, completou o treinador.
A convocação gerou reações imediatas. Parte da torcida e da imprensa questionou a escolha, enquanto surgiram especulações relacionando a decisão à renovação contratual de Ancelotti até a Copa de 2030 e à influência de patrocinadores.
O treinador, porém, demonstrou tranquilidade diante das críticas.
“Todo mundo pode ter opiniões diferentes. No fim, sou eu quem precisa tomar a decisão. Felizmente, hoje ninguém pode dizer que o treinador errou. É preciso esperar até o fim de julho”, afirmou.
Além do carisma, Ancelotti possui um currículo considerado um dos mais vitoriosos da história do futebol. Ele é o treinador com mais títulos da UEFA Champions League, com cinco conquistas, e também venceu os campeonatos nacionais das cinco principais ligas da Europa: Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França.
Em seu livro Quiet Leadership, lançado em 2016, o técnico define seu estilo de liderança com base em três pilares: escuta, respeito e gestão de egos. A filosofia ajuda a explicar tanto a reaproximação com Neymar quanto a capacidade de potencializar jogadores de perfis distintos, como Kaká e Cristiano Ronaldo.
Durante o desfile da Imperatriz Leopoldinense, o carnavalesco Leandro Vieira definiu Ney Matogrosso como alguém de múltiplas formas e identidades. A descrição acabou servindo, de certa forma, também para Ancelotti.
Já no evento organizado pela Confederação Brasileira de Futebol para a convocação da seleção, realizado no Museu do Amanhã, o treinador entrou no clima brasileiro e chegou a dançar discretamente ao som da música.
Agora, a expectativa da torcida é que a versatilidade do técnico também se traduza em resultados dentro de campo e ajude o Brasil na busca pelo hexacampeonato mundial.