Sábado, 25 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 22 de abril de 2026
Escrevo este artigo em 21 de abril de 2026, e faço questão de registrar a data. Se alguém o ler daqui a alguns meses, talvez não compreenda a urgência que me move. A temporalidade é parte da mensagem: estamos vivendo um momento em que cada semana parece condensar décadas de mudança.
Lembro de um domingo de maio do ano passado, em Bento Gonçalves, durante um churrasco de família. Entre risadas e conversas triviais, pedi que anotassem minhas palavras: “em um ano o mundo estará totalmente mudado pelo uso da inteligência artificial e por outros eventos que se acumulam, como a geopolítica e as crises energéticas”. Não era uma previsão mística, mas fruto da experiência de quem já viu muitas transformações ao longo da vida e nunca tinha testemunhado algo tão veloz e impactante quanto a IA.
Hoje, ao escrever neste feriado de Tiradentes, percebo como o tempo se dobra. Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier, foi o líder da Inconfidência Mineira, executado em 21 de abril de 1792 por desafiar o domínio português. Aprendi sobre ele na escola, mas confesso que sempre tive dificuldade em compreender o contexto histórico e político que transformou sua morte em símbolo. Agora, com a ajuda da própria inteligência artificial, pesquisei mais e entendi: o feriado foi instituído em 1890, logo após a Proclamação da República, para exaltar Tiradentes como mártir da liberdade. Sem retratos originais, sua imagem foi moldada à semelhança de Cristo, reforçando o impacto de seu sacrifício.
Essa reflexão sobre Tiradentes me leva ao ponto central: o SXSW 2026, festival que se tornou referência mundial em inovação e cultura. A pesquisa apresentada neste evento mostra que a inteligência artificial já não é apenas software, mas infraestrutura civilizacional, tão fundamental quanto a eletricidade. No Brasil, porém, vivemos uma “suspensão crítica”: usamos, testamos e adaptamos, mas desconfiamos. Reconhecemos a centralidade econômica da IA, mas tememos seus efeitos sobre a educação, as relações humanas e a soberania tecnológica.
Os dados são eloquentes. Enquanto em Austin se celebra a promessa de eficiência hiperpersonalizada, no Brasil 89% temem a perda do pensamento crítico. Apenas 2,6% aceitam a IA como suporte emocional, revelando uma crise de confiança. Mais de 70% acreditam que as pessoas evitam demonstrar sentimentos por medo de julgamento. E 61,9% dizem que a IA reduz a motivação para estudar. O que emerge é um paradoxo: nosso maior ativo cultural, o calor humano e a capacidade de conexão, pode ser justamente o antídoto contra a solidão algorítmica global, mas está ameaçado pela desigualdade da infraestrutura digital.
Assim como Tiradentes foi transformado em símbolo para legitimar uma nova ordem política, a inteligência artificial está sendo moldada como símbolo de uma nova ordem civilizacional. A diferença é que hoje não se trata apenas de independência nacional, mas de soberania digital e de preservação da centralidade humana. O verdadeiro teste não está na sofisticação dos algoritmos, mas na capacidade de uma sociedade usar essa infraestrutura para construir um futuro inclusivo.
O tempo, portanto, é o fio que costura esta coluna. Do churrasco em Bento Gonçalves à execução de Tiradentes, da previsão feita em maio de 2025 ao SXSW de março de 2026, tudo converge para este 21 de abril. O feriado nos lembra que símbolos importam e que as datas carregam sentido. A inteligência artificial nos lembra que o futuro pode ser acelerado a ponto de nos desorientar. E o Brasil nos lembra que, mesmo em meio à desconfiança, há uma oportunidade: liderar modelos de IA que não substituam, mas potencializem as relações humanas.
Se Tiradentes foi mártir da liberdade, talvez nossa geração esteja diante de outro tipo de martírio: o de não se sentir importante em um mundo mediado por algoritmos. Mas também temos a chance de transformar esse risco em oportunidade. O calor humano, que sempre foi nossa marca, pode ser a chave para atravessar este tempo de mudanças sem perder o que nos torna, afinal, humanos.
(Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – contato: rena.zimm@gmail.com)