Domingo, 13 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de setembro de 2026
Um grupo ligado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, fez consultas irregulares a sistemas do Ministério Público Federal (MPF) e da própria Polícia Federal para acompanhar investigações relacionadas ao ex-banqueiro, segundo a PF. Os levantamentos incluíram uma busca pelo CPF de Vorcaro e outra pelos termos “BRB and Master”.
Diante do resultado desta última, Vorcaro escreveu ao responsável pelas consultas: “Quero tudo. Atenção total”.
As informações fazem parte de uma representação da PF encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) e tornada pública nesta sexta-feira (11). A investigação identifica Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que aparece nas conversas como Felipe Mourão e também era chamado de “Sicário”, como o elo entre Vorcaro e uma estrutura que obtinha informações em sistemas de diferentes órgãos públicos.
Segundo a PF, foram identificadas consultas com credenciais funcionais de terceiros em bases do MPF, da própria PF, da Polícia Civil(o Estado não foi especificado) e do Banco Central.
Mourão – que se matou nas dependências da PF em março após ser preso – também é apontado como coordenador de um grupo chamado “A Turma”, ao qual os investigadores atribuem, além da busca por informações sigilosas, atividades de monitoramento e intimidação. Entre os integrantes identificados pela PF está o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
A investigação afirma que Mourão recebia R$ 1 milhão por mês e repassava parte dos recursos a pessoas que atuavam para ele. Os diálogos indicam que o interesse de Vorcaro em descobrir o andamento de investigações aparece pelo menos em fevereiro de 2024. Naquele mês, ele enviou a Mourão o número de um inquérito e perguntou: “Sabem algo sobre esse IPL 500806989.2023.4.03.6181? É da JF (Justiça Federal) de São Paulo?”. Cerca de 40 minutos depois, Mourão encaminhou um áudio de Roseno.
De acordo com a PF, o policial aposentado disse que já havia acionado a “Tropa” e que seria dada atenção especial ao pedido do banqueiro. Meses depois, em 23 de julho, Mourão enviou a Vorcaro o resultado de uma consulta ao MPF feita a partir do CPF do banqueiro. A pesquisa retornou 15 procedimentos, dos quais 11 estavam sob sigilo. A PF verificou que a consulta havia sido registrada no login de Daniel Souza Iost, servidor do Ministério Público. A identificação do usuário não aparecia de imediato no documento.
Segundo a PF, o nome e o setor do servidor haviam sido cobertos por um hachurado branco. A informação, no entanto, continuava armazenada no PDF e pôde ser recuperada pela equipe de investigação. A PF interpreta o recurso como uma tentativa de ocultar quem estava associado à consulta.
Em outra pesquisa, o mesmo usuário aparece associado à busca “BRB AND MASTER”, utilizada para localizar procedimentos nos quais as duas expressões constassem simultaneamente. Foi ao receber esse levantamento que Vorcaro respondeu: “Quero tudo. Atenção total”. Mourão respondeu: “Sim! Então vou mandar puxar geral. Ok”.
O material obtido incluía uma notícia reservada da Procuradoria da República no Distrito Federal. O procedimento tinha como objeto apurar eventual ocorrência de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e delitos conexos relacionados à proposta de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A PF afirma que essa apuração foi o ponto de partida da Operação Compliance Zero, que mais tarde resultou na prisão de Vorcaro. A investigação indica que as buscas avançaram posteriormente para dentro da própria Polícia Federal.
Em setembro de 2025, Mourão encaminhou uma imagem do ePol, sistema interno da PF, com o resultado de uma pesquisa pelo nome de Vorcaro. A tela mostrava números de inquéritos, dois deles sigilosos. Os investigadores ressalvam que, “em tese”, o grupo não conseguiu acessar o conteúdo desses procedimentos.
A descoberta levou a PF a auditar os acessos ao sistema. Até a elaboração da representação, a apuração havia identificado que a consulta indevida partiu da Delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora, em Minas Gerais. A investigação sobre o acesso ainda estava em andamento.
Os diálogos reunidos pela PF trazem ainda referências a consultas internacionais. Em outubro de 2025, Mourão encaminhou uma imagem com o logotipo da Interpol acompanhada das mensagens “O que está em branco foi para ocultar o nome de quem fez a pesquisa”, “Estamos aguardando o relatório principal do FBI” e “A Interpol está limpa”.
A PF procurou a representação da Interpol no Brasil para verificar a origem da imagem. A resposta foi que o layout não correspondia aos mecanismos de consulta disponibilizados pela organização. Os investigadores levantam, porém, a hipótese de que a tela pertença a um sistema nacional de outro país conectado a uma base offline de notificações da Interpol. Neste caso, segundo a representação, a identificação disponível apontaria apenas o país de origem da consulta, e não necessariamente o usuário que a realizou. Com informações do Valor Econômico.