Domingo, 05 de dezembro de 2021

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Urgência da mudança climática eleva pressões políticas e econômicas pelo mundo

Um dos maiores dramas do mundo atual será a conversão para a economia verde. Trata-se de um enredo científico com componentes econômicos e políticos – presentes num episódio que causou comoção em Portugal em abril deste ano, o fechamento de uma refinaria da petrolífera Galp.

No lado econômico está a visão estratégica da empresa que, na ocasião, emitiu um comunicado: “Antevê-se que a próxima década seja de profunda transformação. As imposições regulatórias, os desenvolvimentos tecnológicos e os custos cada vez mais reduzidos das opções de baixo carbono vão levar a sociedade a acelerar cada vez mais em direção a um futuro mais limpo”. Na semana passada, a Galp fez jus a um aporte de 732 milhões de euros do Banco Europeu de Investimentos – a União Europeia está empenhada em incentivar a produção de energia limpa com o objetivo de atingir a neutralidade carbônica até 2050.

O lado político se fez sentir na Assembleia da República portuguesa. Parlamentares à direita e à esquerda se incomodaram com a extinção de aproximadamente 500 empregos diretos e mil indiretos.

Até o primeiro-ministro António Costa, com histórico de políticas sustentáveis, criticou a Galp – que usou parte dos fundos da União Europeia para requalificar parte dos funcionários. Com um olho no presente, a empresa pretende continuar a refinar petróleo em outra planta. O outro olho está no futuro – a Galp criou um grupo de trabalho para decidir que destino dar ao local. O grupo, liderado por Rodrigo Tavares, professor de finanças sustentáveis da Nova School of Business and Economics, está estudando dezenas de projetos de transformação industrial e de revitalização urbana sustentável pelo mundo.

Urgência

As duas visões – a econômica e a política – estão corretas. Sim, o mundo terá de se mover na direção da economia de baixo carbono. Há urgência e oportunidade. Há crédito no presente e lucros no horizonte. E, sim, tal conversão será dolorosa. Se o planeta girar no sentido correto – o da preservação da esfera azul que habitamos – empregos serão destruídos e atividades econômicas desaparecerão do mapa. Políticos hesitarão diante da mudança que precisa ser feita, com medo de perder votos.

Foi-se o tempo em que o principal obstáculo da mudança climática eram os “céticos do aquecimento global” – desmoralizados, eles hoje são conhecidos como “negacionistas”, nome mais apropriado aos que desconsideram evidências científicas. Há consenso em torno do que precisa ser feito. A grande questão é como fazer – com o máximo de eficiência e o mínimo de dano.

Vários economistas têm-se debruçado sobre o problema. Um deles, William Nordhaus, ganhou um prêmio Nobel por um conjunto de estudos sobre a questão. Nordhaus acaba de lançar um livro, The Green Spirit, onde resume suas ideias de maneira clara e brilhante. Ao longo dos séculos a economia se desenvolveu consumindo o planeta.

A pobreza absoluta, a fome endêmica e a desigualdade diminuíram, mas a um alto preço. Nordhaus defende que, agora que sabemos o custo, devemos pagar por ele. Se fizermos isso, poderemos continuar crescendo – mas em bases mais sustentáveis.

Para além da governança de cada país, existe o emaranhado de acordos internacionais. Na COP-15, em Copenhague (2009), havia a esperança de que algum tipo de liderança global poderia colocar o planeta no rumo certo. Na COP-21 (2015), a do Acordo de Paris, tal ilusão se desfez.

O microcosmo da Galp mostrou como a transição para a economia verde será dramática para todos os países, ao gerar vencedores e perdedores. Se as boas ideias da sociedade civil triunfarem, no médio prazo, sobre o desmatamento que enfraquece nossa posição, o Brasil tem enorme potencial para transformar o drama em oportunidade.

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