Quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vorcaro recebeu autorização do Banco Central para ser banqueiro quando já era alvo de investigações policiais

Duas semanas antes de deixar o cargo, o então presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, decidiu recusar, em fevereiro de 2019, o pedido de compra do controle do Banco Máxima – que depois seria rebatizado como Banco Master – por Daniel Vorcaro, para não empurrar o problema para o seu sucessor, Roberto Campos Neto. Oito meses depois, sob a nova direção, o pleito foi aceito. Detalhes dos trâmites, que eram sigilosos, só vieram à tona após a quebra da instituição financeira.

Para entender como Vorcaro – que, à época, já era alvo de investigações policiais e pouco depois chegou a ter contra si um mandado de prisão – passou pelo crivo do Banco Central, o jornal Valor Econômico obteve extratos inéditos dos dois votos elaborados pela instituição que levaram primeiro à recusa e depois à aceitação do pleito pela diretoria colegiada.

O Valor também conversou com técnicos que participaram da elaboração dos documentos preparatórios e com diretores do BC que estiveram presentes nessas duas reuniões-chave. A conclusão é que, nas duas ocasiões, todos estavam cientes da má fama de Vorcaro, mas em ambas o BC ficou um passo atrás de declarar que ele não atendia ao requisito de reputação ilibada para assumir um banco.

“Sabíamos que ele era picareta”, resume um ex-integrante da diretoria colegiada que participou do processo de decisão. Mas Vorcaro passava do critério objetivo até hoje adotado pelo BC para vetar alguém: não existia contra ele uma denúncia do Ministério Público aceita pela Justiça.

O extrato do voto n° 20/2019 da diretoria colegiada do Banco Central, obtido pelo Valor por meio da Lei de Acesso à Informação, diz que a primeira proposta de Vorcaro para assumir o grupo de controle do Máxima foi rejeitada em 13 de fevereiro de 2019. Quem comandou a reunião foi llan, que seguiu no cargo nos dois primeiros meses do governo Bolsonaro para fazer a transição para Campos Neto.

O caso foi relatado pelo então diretor de organização do sistema financeiro e de resolução, Sidnei Corrêa Marques, que fundamentou a recusa na insuficiente demonstração “quanto à origem dos recursos utilizados na operação” e “quanto à capacidade econômica e financeira dos pretensos adquirentes.”

Oficialmente, não houve nenhum relatório formal sobre se Vorcaro atendia ao requisito de “reputação ilibada”. Isso foi dispensado pelo chamado princípio da economia processual: como havia dois quesitos que barravam a compra do banco, não era necessário avançar no quesito reputação.

Mas fontes dizem que, nela, o único ponto discutido foi a má fama de Vorcaro e de sua família. “Era um golpista conhecido”, diz uma dessas fontes.

Também se discutiu como, ao longo de um longo processo de instrução do pedido para assumir o controle do Máxima, o candidato a banqueiro tentou enganar o BC com informações falsas sobre sua vida financeira pessoal e sobre a situação do banco. “Se falsear durante um procedimento dentro do Banco Central fosse uma justificativa jurídica aceita para barrar alguém, Vorcaro teria perdido o banco ali”, relata uma fonte.

A compra do Máxima por Vorcaro foi negada apenas uma vez pelo Banco Central, apesar de sua análise ter passeado mais de um ano pelos escaninhos da instituição e de ter sido reformulada algumas vezes.

Oficialmente, Vorcaro começou a entrar no capital do Máxima em agosto de 2017, com uma participação de 20%, segundo outro extrato, que resume uma decisão monocrática de Marques. Fatias acima de 15% do capital total são consideradas participação qualificada e exigiam, pela legislação da época, uma autorização prévia, que era concedida em um escalão mais baixo, decidida pelo diretor do Banco Central.

Nesse período, Vorcaro passou por seu primeiro crivo. Para ter participação qualificada, o acionista tem que comprovar a origem dos recursos e também ter reputação ilibada. A capacidade econômica só é exigida de quem quer assumir o grupo de controle porque, se o banco tiver problemas, essa pessoa deve ter recursos para equacionar eventuais desequilíbrios. (Com informações do Valor Econômico)

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