Domingo, 06 de setembro de 2026

Vulcão de 454 milhões de anos é descoberto sob a Inglaterra

Cientistas do Serviço Geológico Britânico e da Universidade de Oslo encontraram evidências de uma enorme estrutura vulcânica enterrada sob a costa leste da Inglaterra. A descoberta, publicada no Bulletin of the Geological Society of America, pode resolver um antigo mistério geológico: a origem da tefra de Kinnekulle, uma camada de cinzas vulcânicas encontrada em áreas da Noruega, Suécia, região do Báltico, Bielorrússia e Polônia.

O estudo de cristais microscópicos recuperados em furos de sondagem em Norfolk e Lincolnshire indica que eles se formaram há cerca de 454,4 milhões de anos, praticamente na mesma época que cristais encontrados na tefra de Kinnekulle, na região de Oslo. Para a equipe, a coincidência de idade e outras características químicas apontam para uma mesma origem. A hipótese é que uma gigantesca erupção ocorrida no que hoje é o leste da Inglaterra lançou cinzas para a atmosfera, que foram transportadas até a região da atual Escandinávia.

Evidências

A principal evidência utilizada no estudo veio de grãos de zircão, minerais que se formam no magma antes de uma erupção. As amostras analisadas foram retiradas de perfurações feitas há décadas em Norfolk e Lincolnshire, locais separados por cerca de 65 quilômetros.

O zircão contém urânio, que se transforma gradualmente em isótopos de chumbo em uma taxa conhecida. Ao medir a proporção entre esses elementos, os pesquisadores conseguiram determinar quando o cristal se formou.

Em comunicado, os autores destacam que os resultados mostraram idades praticamente idênticas nas amostras inglesas e nos cristais associados à tefra de Kinnekulle. A composição de cristais de apatita, outro mineral usado para investigar a origem das rochas, também reforçou a hipótese.

Com esses dados, os cientistas reconstruíram a trajetória das cinzas. Há mais de 450 milhões de anos, a configuração dos continentes era muito diferente da atual, e uma massa de água conhecida como Mar de Tornquist separava a região que corresponde à Inglaterra da Escandinávia. A pluma vulcânica teria atravessado esse antigo mar antes de se depositar no fundo oceânico.

Erupções

A dimensão do fenômeno foi estimada a partir da ampla distribuição dos depósitos vulcânicos. De acordo com o Serviço Geológico Britânico, centenas de quilômetros cúbicos de rocha foram lançados durante o episódio, com uma coluna eruptiva que pode ter alcançado a estratosfera.

A explosão também teria produzido fluxos piroclásticos, correntes de gases extremamente quentes, cinzas e fragmentos de rocha que se deslocam rapidamente a partir de um vulcão. Assim, teria sido comparável, em magnitude, a alguns dos maiores eventos vulcânicos conhecidos.

Os pesquisadores também identificaram cristais de zircão com cerca de 453,7 milhões de anos, indicando que houve uma nova fase de atividade vulcânica pouco depois do principal evento. Essa segunda ocorrência estaria relacionada ao colapso da caldeira, uma grande depressão que pode se formar quando uma estrutura vulcânica desaba após uma erupção de grande porte.

Embora o Serviço Geológico Britânico descreva a estrutura como um supervulcão, o portal Live Science aponta que o termo é usado para indicar erupções de escala excepcional e não corresponde a uma categoria científica totalmente precisa. Uma classificação mais específica para o episódio seria “erupção ultrapliniana”, denominação aplicada às explosões vulcânicas mais violentas, capazes de lançar grandes volumes de material à atmosfera.

Vulcão invisível

A estrutura identificada está enterrada sob áreas atualmente bastante planas de Norfolk e Lincolnshire. Não há, portanto, uma montanha ou cratera que permita reconhecer o antigo vulcão na paisagem.

Isso ocorre porque mais de 454 milhões de anos de erosão, soterramento e transformação tectônica alteraram profundamente a região. Grande parte dos materiais produzidos pelas erupções desapareceu, enquanto outros foram preservados em camadas subterrâneas.

A área também fazia parte de um sistema vulcânico muito mais extenso. Rochas de idade semelhante são encontradas hoje em Eryri, no País de Gales, e no Lake District, no noroeste da Inglaterra.

Em estruturas vulcânicas tão antigas, geralmente permanecem apenas depósitos das erupções e rochas formadas em reservatórios subterrâneos de magma. O vulcão original pode ser completamente destruído ou deformado por processos geológicos posteriores. (Com informações da revista Galileu e IG Último Segundo)

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