Investigação e laudo apontam que a jovem ferida com cruz suástica em Porto Alegre se automutilou

A Polícia Civil do Estado divulgou um laudo sobre a investigação do caso de uma jovem de 19 anos com cortes feitos em forma de suástica no corpo. No início do mês a suposta agressão foi registrada como tendo sido praticada por pelo menos três pessoas. Em coletiva de imprensa, o delegado Paulo César Caldas Jardim, responsável pelas investigações do caso, informou que o laudo diz que os cortes foram resultado de automutilação ou uma intervenção consentida por ela.

O caso veio à tona há cerca duas semanas, em Porto Alegre. O delegado relatou ainda que não havia cortes na pele, apenas arranhões na epiderme – parte mais superficial – e que a ocorrência foi registrada em uma terça-feira (9) à noite, quando a agressão teria ocorrido na segunda-feira (8).

Conforme Jardim, o conhecimento do fato se deu somente na quarta-feira (10), e em conversa com a vítima e seus advogados, durante uma tarde inteira de conversas, foi possível ver que ela estava bastante abalada. “No andamento do apresentado nós vamos chegar à conclusão de que temos um caso clínico, de debilidade emocional da vítima”, afirmou durante a coletiva.

Ao chegar a delegacia, contou que a própria vítima disse que sequer desejava ter registrado ocorrência e que só registrou porque uma amiga queria publicar uma matéria no Facebook, e que essa seria uma forma de esquentar a matéria.

De acordo com o delegado já ao examinar a lesão, já foi levantada a suspeita. “Pela experiência e pelo tipo de lesão vimos que não havia cortes, não havia bordas. Era muito simétrico”, relatou.

Jardim afirmou que mesmo ouviram a história da menina, que teria sido agredida a socos ao descer do ônibus, agarrada por duas pessoas, levado socos nas costelas, pelo corpo todo, mas não apresentava traços dessas agressões, nem no corpo, nem no rosto e nem nos braços, onde deveriam haver hematomas, a julgar pelos seus relatos.

O delegado esclareceu que no relato ela afirmou que vestia uma camiseta preta, sem símbolos, lisa, mas que na mochila haveria um adesivo de 12 centímetros com as cores do arco-íris, do LGBT, e na transversal a inscrição “Ele não”.

Ao descer do ônibus próximo da igreja Pão dos Pobres, teria entrado na rua Baronesa do Gravataí, mas que logo havia sido abordada por essas três pessoas, teriam havido trocas de ofensas, até que eles a teriam perseguido, agarrado, e com um estilete teriam sido feitos os “riscos” – cerca de 23. Após desenhar esse símbolo, as pessoas teriam fugido.

Após o depoimento, mesmo quando a vítima não quis representar criminalmente, a Polícia decidiu seguir a investigação por ter identificado que era um caso diferenciado. A área que teria sido percorrida pela vítima foi investigada e foram identificadas 12 câmeras, além de marcado o local onde teria acontecido o ataque. Analisando as 12 câmeras durante um intervalo de duas horas, que englobaria o momento da agressão, nem mesmo a vítima e muito menos o grupo foram vistos nas imagens. “Em nenhuma das câmeras apareceu”, disse o delegado.

“Entrevistamos guardadores de carros, empresários, donos de lojas, de bares, moradores, síndicos de prédios, mais de 20 pessoas nesta área e nenhuma delas viu qualquer situação diferenciada”, informou. “E o fluxo de pessoas nessa hora é bastante intenso”, completou.

Laudo

O laudo do IGP (Instituto Geral de Perícias) concluiu que as lesões produzidas na vítima “não são compatíveis com as que seriam esperadas, na hipótese de ter havido efetiva resistência da parte dela à ação de um agente agressor”.

Segundo a perícia, as lesões foram produzidas cautelosamente, sem dano às camadas profundas da pele, provocando alterações apenas superficiais.

“Não havia, no momento do exame, lesões na face ou nas mãos e nos antebraços que sejam características de lesão de defesa”, diz o laudo. O documento diz ainda que exceto pelas múltiplas escoriações lineares e superficiais e uma pequena mancha no abdome, o exame indica que, se houve algum embate corporal, os agressores não teriam empregado meios adicionais que fossem efetivos em produzir outras lesões.

Ainda conforme o laudo, não havia um ferimento inciso, com ação contundente, mas sim algum objeto como arames, lâminas metálicas, grampos ou bijuterias, joias, pregos ou superfícies vítreas não polidas, pedaços de latas, agulhas ou hastes.

Situação clínica da vítima

O delegado Jardim afirmou que a vítima está em casa, em tratamento. “É uma pessoa doente, debilitada. Ela sofre ataques de pânico, toma remédios fortíssimos, já fazia anteriormente acompanhamento psicológico e psiquiátrico, e mais ainda agora”, relatou.

Crime

Conforme o delegado a falsa comunicação de crime, que tem uma pena que vai de seis meses a um ano, será encaminhada ao Judiciário. O delegado descartou componente político no ato. “Absolutamente nenhum”, disse o delegado.



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