Quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de outubro de 2026
A cultura gaúcha está de luto com o falecimento da fotógrafa, pesquisadora e historiadora porto-alegrense Irene Santos, 79 anos. Nome fundamental na valorização do legado afrobrasileiro, ela morreu na tarde de terça-feira (28), após dez dias internada no Hospital de Clínicas devido a complicações vasculares. A despedida está marcada para esta quinta, das 13h às 16h, no Ângelus Memorial e Crematório.
“Irene não se limitou a registrar acontecimentos”, ressalta a amiga Lizandra Moraes, produtora, documentarista de Irene Santos e representante do Coletivo Almas Retintas. ” Com uma obra que atravessa diferentes linguagens, investigou as possibilidades da fotografia como linguagem estética, documento histórico e forma de preservar experiências que poderiam desaparecer dos registros públicos.”
Formada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1971, ela estabeleceu relação permanente entre investigação histórica e criação artística. Durante o curso, realizou cursos e estudos em fotografia, desenvolvendo uma linguagem autoral atenta às pessoas, expressões culturais e e memória coletiva.
Seu primeiro emprego na área foi no setor de produção de fotolitos para a gráfica do Banrisul – fora do expediente, cobria eventos e produzia imagens para divulgação de espetáculos teatrais e musicais. Deixou o emprego no banco em 1979 para se dedicar a seu primeiro estúdio, desenvolvendo projetos marcados pela experimentação e diálogo entre artes plásticas e cênicas, música, história e elementos afrobrasileiros.
Suas exposições exploraram elementos como retrato, representação, imaginário e possibilidades simbólicas da fotografia. Foram diversas mostras ao longo das últimas décadas, em instituições como Theatro São Pedro, Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e Casa de Cultura Mario Quintana, além de espaços públicos e eventos como a Bienal do Mercosul.
“Negro em Preto e Branco”
Dentre as contribuições mais significativas de Irene Santos está o livro “Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre”, de 2005. Financiada pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte), a obra recebeu no ano seguinte o Prêmio Açorianos de Literatura, concedido pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC).
Lizandra Moraes destaca: “A publicação reuniu fotografias e histórias fundamentais para reconhecer a presença negra na formação social e cultural da cidade, resultando em um trabalho que ajudou a ampliar a visibilidade de famílias, trajetórias e experiências que nem sempre receberam o devido espaço na narrativa histórica oficial”.
Em 2010, foi a vez de “Colonos e Quilombolas – Memória das Colônias Africanas de Porto Alegre”, também com apoio do Fumproarte. O trabalho aprofundou a investigação e registro de relatos decisivos na compreensão da formação urbana e cultural de capital gaúcha.
Irene incursionou, ainda, pelo segmento audiovisual. É dela o webdocumentário “Outros Carnavais — Memória do Carnaval de Rua de Porto Alegre (1930-1969), lançado em 2014 e também bancado com recursos do Fumproarte. “A obra ampliou as possibilidades de circulação da pesquisa histórica por meio de linguagem digital, articulando memória, documentação e acesso público”, sublinha a amiga e produtora.
A última realização de Irene Santos é a mostra fotográfica “A Força da Memória”, em cartaz no Museu da UFRGS (no campus central da instituição) – avenida Osvaldo Aranha nº 277, bairro Farroupilha. Inaugurada em setembro e com visitação até 18 de dezembro. Em parceria com o Coletivo Almas Retintas, a mostra celebra os 20 anos do livro “Negro em Preto e Branco”.
(Marcello Campos)