Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 14 de junho de 2026
O ano de 1981 foi marcante para o Brasil. O país rumava para o fim da ditadura militar, com o atentado do Riocentro e a abertura política sob João Figueiredo. Pelé foi eleito “atleta do século” pelo jornal francês L’Équipe. Silvio Santos inaugurou o SBT.
Um abalo sísmico contrário, porém, chegou pelo noticiário de saúde: em 5 de junho daquele ano, os Estados Unidos identificaram o começo de uma epidemia de Aids que se tornaria global e atingiria também a sociedade brasileira pelos 45 anos seguintes, completos nesta sexta-feira (5). Quase meio século depois, o país ainda amarga duros índices, com milhares de novos diagnósticos e mortes por ano.
Desde 1982, quando a epidemia chegou ao Brasil, 1,6 milhão conviveram com o HIV. Destes, 1,1 milhão de casos progrediram para Aids, segundo o DataSUS. Até o fim de 2024, 402 mil pessoas morreram pela doença.
O vírus que encurtou a vida de Cazuza (1990), Freddie Mercury (1991) e Renato Russo (1996) contaminou 25.571 pessoas no ano passado e matou 9.157 em 2024 no Brasil.
Vista então como uma sentença de morte, a Aids ganhou tratamentos que derrubaram sua letalidade. O estigma, contudo, permanece como um obstáculo à eliminação da doença, afirma Alvaro Costa, infectologista do Hospital das Clínicas e sub-investigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids.
“Nos anos 1990, era uma doença fatal, com expectativa de vida curta e intenso estigma. Hoje, é uma doença crônica tratada: os pacientes têm uma ótima qualidade de vida, remédios disponíveis no SUS e prevenção. Mas o estigma é o mesmo. As pessoas ainda se escondem, têm medo e são julgadas”, diz.
Para o médico, não se trata apenas de narrativa. O estigma impede um debate sério sobre a doença e novos tratamentos.
“Existem bons estudos, com robustez, com comprometimento. Mas diferentemente do câncer, por exemplo, o HIV ainda remete a tabu, à sexualidade das pessoas e à discussão moral”, afirma Costa.
Há exemplos recentes de retrocesso ligado ao conservadorismo. Em 2025, o governo Donald Trump promoveu uma série de cancelamentos de programas sobre HIV/Aids nos Estados Unidos. Também cortou bilhões de dólares em ajuda externa.
A Aids completa 45 anos sem cura e sem vacina, mas há avanços em tratamento e prevenção. Se nos anos 1990 pacientes com HIV precisavam tomar mais de 20 comprimidos ao longo do dia, em esquemas complexos e com efeitos colaterais severos, hoje é possível controlar a infecção com um único comprimido diário.
Os antirretrovirais modernos reduzem a carga viral a níveis indetectáveis, impedindo a transmissão sexual do vírus.
Outro marco foi o surgimento da PrEP (profilaxia pré-exposição), adotada na década de 2010 em diversos países e em 2017 no SUS. O método consiste no uso de antirretrovirais por pessoas que não têm HIV, mas apresentam maior risco de exposição ao vírus. Quando utilizada corretamente, a PrEP reduz em 99% a chance de infecção e é hoje uma das principais formas de prevenção da doença.
O acesso a essas ferramentas, contudo, ainda é desigual, avalia Costa. “O que vemos no Brasil é uma boa rede de apoio nos grandes centros, sobretudo no Sudeste, e o interior desfavorecido. Temos médicos que ainda não conhecem PrEP, municípios sem testagem, pessoas sem informação. O controle da Aids depende de ações integradas: PrEP, camisinha e testagem. Se algum deles falha, há prejuízos”, afirma. Com informações da Folha de S. Paulo.