Domingo, 31 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 31 de maio de 2026
As relações entre Brasília e Washington iniciam mais um capítulo perigosamente negativo após o anúncio do governo dos Estados Unidos, na última quinta-feira, de que passará a classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas, algo que o Itamaraty buscou, sem sucesso, evitar. A avaliação é unânime entre especialistas na área ainda que a exata gravidade da medida, que abre a possibilidade real de interferência americana em solo brasileiro — ainda que, por ora, improvável —, só será dimensionada após eventuais aplicações práticas.
A avaliação é de que há pouco a se fazer de imediato do lado brasileiro, além de incrementar o investimento, em uma Casa Branca centralizadora, no contato direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump. Assim como no caso do tarifaço, a tática deve passar por enfatizar como interesses de investidores e empresas americanas no Brasil também estão em jogo.
Diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, Feliciano Guimarães afirma que o impacto negativo do anúncio da semana passada é ainda maior do que o dos tarifaços impostos pelo governo Trump ao Brasil. Isso ocorreu, avalia, inclusive por ultrapassar o domínio do universo das relações comerciais e dar liberdade jurídica a órgãos americanos para interferir em múltiplos setores da vida brasileira:
— Em um primeiro momento, o maior prejudicado em potencial com esse avanço extranacional é o setor bancário brasileiro, com a possibilidade de captura de ativos de indivíduos acusados de envolvimento com o terror e o fator extra de insegurança para os investidores. Mas tenho certeza de que neste exato momento as Forças Armadas e a Receita Federal estão debruçadas sobre os novos elementos postos à mesa na devida consideração da efetiva proteção do país de interferências estrangeiras — aposta o pesquisador.
Mitigação de danos
Guimarães também destaca que Washington certamente incluirá em mesas de negociações futuras com o Brasil a eventual revogação do anúncio de ontem, que passa a valer no dia 5 de junho:
— E eles não o farão de graça. A relação entre os dois países tem sido ruim desde o retorno de Trump à Casa Branca e vivemos agora nova escalada. Lula conseguiu até aqui, com habilidade, mitigar os danos de um enfrentamento que se dá por questões estruturais, expostas na chamada Doutrina Donroe (que estabelece as Américas como área de influência exclusiva dos EUA), anunciado no fim do ano passado. A dimensão política, econômica e de segurança nacional do anúncio de quinta-feira é muito mais ampla do que a dos tarifaços, dos quais saímos quase ilesos. O baque no sistema financeiro, desta vez, pode ser bem maior.
Embaixador aposentado, Roberto Abdenur alerta que o país vive hoje sob um risco inédito de intervenção em mais de dois séculos de relações com Washington, com a possibilidade de aplicações de sanções econômicas e interferência no sistema financeiro brasileiro de dimensão muito maior do que as taxações perpetuadas por Trump, “embora ainda não tenha se manifestado de forma concreta”. A ponderação do diplomata, que por dois anos, após deixar o Itamaraty, foi assessor da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), é feita ao lado de observação que considera ser central para se assegurar uma distância grande entre o anúncio dos EUA e eventuais ações práticas do governo americano a partir da avenida de possibilidades por ele proporcionado:
— O governo brasileiro precisa enfatizar eventuais danos aos interesses privados dos americanos no Brasil, notadamente investidores e empresários. Estamos falando de um universo de mais de quatro mil empresas americanas e de um investimento direto total vindo dos EUA que só não é maior, pelos americanos, na China. Qualquer movimento pode ser extremamente contraproducente para esse estrato. Espero que o empresariado americano no Brasil se mexa.
Embaixador do Brasil nos EUA entre 2004 e 2006, no primeiro governo Lula, Abdenur destaca a ausência, na reação do petista, de críticas direcionadas a Trump. É na relação direta entre os dois presidentes, aponta, que um novo caminho de distensionamento entre os países pode ser traçado:
— Há presidentes em que o peso da relação pessoal é imenso, e esse é o caso de Trump. Ao mesmo tempo, o republicano não gosta de quem lhe baixe a cabeça. Um longo telefonema seria um caminho inicial para mais um recomeço. Com informações do portal O Globo.