Segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de agosto de 2026
Enquanto eventos extremos ligados às mudanças climáticas se tornam cada vez mais frequentes em diferentes regiões do mundo, o vice-presidente do Earthshot Prize, David Fein, defende que o debate sobre o tema não pode se concentrar apenas nos impactos da crise, mas também nas iniciativas de sucesso capazes de adaptar comunidades, recuperar ecossistemas e reduzir danos ambientais.
Para Fein, o país tem potencial para se tornar um dos principais polos de inovação climática do mundo, por reunir empreendedores e soluções ambientais de “classe mundial” capazes de inspirar outros países.
Criado pelo príncipe William em 2020, o Earthshot Prize é uma premiação global que seleciona projetos em cinco áreas ambientais e concede 1 milhão de libras (em torno de R$ 6,89 milhões) a cada vencedor para ajudar a ampliar o impacto das iniciativas. Além do prêmio, a organização atua conectando, em nível global, finalistas a investidores, empresas e parceiros para acelerar a implementação das soluções capazes de mitigar os efeitos da crise climática.
Leia a seguir trechos da entrevista com David Fein publicada pelo jornal O Globo:
Adaptação climática
Fein: A visão do Earthshot e do príncipe William é justamente a crença de que as soluções já existem e que, se receberem a oportunidade de acelerar e ganhar escala, poderão ter um impacto profundo no planeta. E estamos focados em promover isso. A primeira etapa do nosso trabalho é identificar e selecionar ideias que podem fazer mais diferença. Depois de identificá-las, o próximo passo é apoiá-las, e elas precisam de muito apoio.
São soluções novas, disruptivas, desafiadoras, muitas vezes pouco convencionais. Por isso, enfrentam inúmeras barreiras para entrar no mercado ou serem adotadas, e nós procuramos ajudá-las a superar esses obstáculos. Elas precisam de investimento, de implementação, de apoio vindo de diferentes formas e de diferentes lugares. Por isso, criamos uma aliança global de parceiros capaz de ajudá-las a encontrar investimentos, oportunidades de implementação e outros caminhos para romper barreiras e ganhar escala.
Atenção climática
Fein: É difícil não receber atenção, porque está acontecendo diante dos nossos olhos, como você disse. Está acontecendo em todos os continentes. Então, acho que está recebendo atenção porque está nas notícias. Ainda assim, acredito que existe um excesso de pessimismo e que não há atenção suficiente voltada para as soluções, para as formas de adaptação, de mitigação e de recuperação do planeta.
A natureza tem uma capacidade extraordinária de se recuperar, desde que haja essa oportunidade. E nós temos soluções baseadas na natureza que oferecem isso. Quando vemos essas soluções sendo aplicadas no campo e acompanhamos seus resultados, percebemos respostas muito rápidas dos ecossistemas.
Cooperação internacional
Fein: Acreditamos profundamente na cooperação internacional. Muitas das nossas soluções são transfronteiriças e globais, e precisam ser implementadas dessa forma. Primeiro, porque o clima e a natureza não respeitam fronteiras nem limites políticos, eles atravessam territórios e países. Segundo, porque pode existir (e de fato existe), por exemplo, uma excelente solução na Tasmânia, na Austrália, que gostaríamos de ver empresas ao redor do mundo, como as do Brasil, adotando.
Por isso incentivamos o diálogo entre países. Temos governos que já venceram ou foram finalistas do Earthshot Prize, como a Costa Rica, a cidade de Milão e a cidade de Bogotá. Quando recebem o prêmio de 1 milhão de libras, pedimos que utilizem esse recurso para ampliar seus projetos para além de suas cidades ou países, e felizmente sempre vemos isso acontecer na prática.
Contribuição brasileira
Fein: Boas soluções estão sendo criadas em todo o mundo, tanto no Norte quanto no Sul Global, e vemos isso no Earthshot. Mas, por exemplo, o que percebemos muito claramente no Brasil, para onde já vim sete vezes nos últimos 13 meses, é que existe uma biodiversidade extraordinária, uma natureza incrível e uma localização geográfica extremamente importante. E há empreendedores e inovadores de classe mundial, tão bons quanto qualquer outro no planeta, que merecem reconhecimento. O país é extremamente rico em seu capital humano. E, pessoalmente, o que mais me impressionou foi o comprometimento das pessoas. Elas estão realmente engajadas em melhorar a situação ambiental de uma maneira que serve de modelo para o restante do mundo.
Atuação no Brasil
Fein: Temos vários projetos em andamento. Nesta semana, lançamos nosso primeiro hub de inovação em parceria com o Cubo Itaú, durante a São Paulo Climate Week. A ideia é conectar vencedores e finalistas do Earthshot a empresas brasileiras, investidores, startups, universidades e empreendedores. O problema não é a falta de ideias, mas conectar as pessoas certas.