Domingo, 30 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de agosto de 2026
Em menos de dois anos, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e seus cúmplices conseguiram executar, entre outras operações, uma cadeia de negócios que envolveu um império de energia em Minas Gerais, o maior cemitério da América Latina, a venda de R$ 30 bilhões em títulos podres ao Banco de Brasília (BRB) e, por tabela, uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) de um clube em Pernambuco, deixando um rombo sem precedentes. Para isso, o banqueiro contou com amigos colecionados em Belo Horizonte ao longo dos anos, entre eles Iran Barbosa, ex-vereador da capital e ex-deputado estadual.
O primeiro ato dessa cadeia de ações se iniciou em 7 de dezembro de 2023, quando a Reag Trust Administração de Recursos originou o Fundo Horeb de Investimentos em Participações Multiestratégia para incorporar a Monte Santo Participações e Empreendimentos S/A, de Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
Essa sociedade é proprietária, em Belo Horizonte, do Cemitério e Crematório Monte Santo, o maior da América Latina, com 110 mil jazigos. O empreendimento pertencia à família do ex-deputado Irani Barbosa, falecido em 2020, aos 70 anos. O empreendimento funerário acabou em herança a seis filhos – entre eles Iran Barbosa – e esposa, sendo posteriormente, por meio de uma operação societária, incorporado pela Horeb.
A Reag Trust teve seu fechamento decretado em outubro de 2025, em decorrência da operação Carbono Oculto, da Polícia Federal em conjunto com a Receita Federal, que desbaratou negócios ligados à facção criminosa PCC no refino e na distribuição de combustíveis. De acordo com as denúncias, o grupo criminoso usava fintechs e fundos de investimentos, como a Reag, para lavagem de dinheiro. A empresa administrava R$ 341 bilhões, segundo as investigações, provenientes de atividades relacionadas ao crime organizado.
O Banco Master, da família Vorcaro, assim como o PCC, precisava “reciclar” cerca de R$ 54 bilhões captados e desviados de suas atividades de banco de investimentos. Disso, se deram várias operações interligadas na lavagem do dinheiro conseguido por meio de atividades criminosas.
O Fundo Horeb, criado pela Reag Trust, incorporou e assumiu a gestão dos ativos funerários pertencentes ao espólio de Irani Barbosa. Com capital social declarado de apenas R$ 464 mil, o valor da Monte Santo foi calculado por uma empresa contratada pela Reag, e seu capital por equivalência patrimonial saltou para R$ 455,8 milhões, ou seja, mil vezes superior ao capital social registrado pela empresa. Esse valor, aprovado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), acabou servindo de referência para a precificação das cotas do fundo de propriedade do espólio da família Barbosa.
Enquanto o processo acontecia, Iran Barbosa tornava-se diretor da Cemig SIM em 1º de janeiro de 2024, apenas três dias após o Fundo Horeb ser aprovado, em 29 de dezembro de 2023, pela CVM, no valor de R$ 455,8 milhões. Coincidentemente e quase em sincronia, durante os cerca de 11 meses em que Iran Barbosa permaneceu na diretoria da Cemig SIM, referência da Cemig no setor de energias renováveis, a família Vorcaro obteve autorização para instalar 19 usinas fotovoltaicas de Geração Distribuída (GD). O tempo normal de um processo depois de estudos e avaliações é de dois anos ou mais.
O sincronismo intrigante de operações determinou, poucos dias depois da saída de Iran Barbosa da Cemig, que o Fundo Horeb, único proprietário do Cemitério Monte Santo, da família Barbosa, passasse a ser administrado por Daiane Aline de Andrade Silveira a partir do dia 2 de dezembro de 2024. A mesma Daiane de Andrade administra outras 86 sociedades da família Vorcaro, quase todas elas com indícios de terem servido para escoar recursos desviados do rombo do Banco Master. Na cronologia, sai Iran Barbosa da Cemig SIM, em 10 de novembro de 2024, e entra Daiane no controle da Monte Santo em 2 de dezembro de 2024.
Novos rumos
Após deixar a Cemig SIM, Iran Barbosa seguiu para Pernambuco para assumir posição de sócio e administrador da recém-formada SAF Santa Cruz. O clube do Recife passou a ser controlado por Daniel Vorcaro, que anunciou investimentos de R$ 1 bilhão ao longo de 15 anos.
A missão de recuperar o Santa Cruz não prosperou. Entretanto, o movimento agradou a um torcedor ilustre do clube pernambucano: o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que se encontra preso desde abril deste ano em decorrência da operação Compliance Zero, que apura os crimes do Banco Master. Paulo Henrique está sendo processado por ter comprado, via BRB, cerca de R$ 30 bilhões em carteiras de créditos podres do Master entre 2024 e 2025. (As informações são do jornal O Tempo)