Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de agosto de 2026

Um encontro nacional reuniu governo, indústria, empresas de tecnologia, instituições financeiras e organizações da sociedade civil para discutir a implementação da sexagem in ovo no Brasil. A tecnologia, capaz de identificar o sexo do embrião ainda durante a incubação, evita a eliminação de pintinhos machos logo após o nascimento — prática considerada uma das mais cruéis da avicultura mundial.
O desafio ético e econômico
Todos os anos, bilhões de pintinhos machos são descartados porque não possuem valor econômico para a produção de ovos e carne. Métodos como trituração mecânica e gaseificação ainda são utilizados em diversos países, mas vêm sendo classificados como procedimentos de extrema crueldade. A sexagem in ovo surge como alternativa, permitindo que ovos identificados como machos sejam destinados a outros usos industriais, como produção de vacinas e ingredientes para alimentação animal.
Experiência internacional
Países como Alemanha, França e Itália já incorporaram a tecnologia após mudanças regulatórias que proibiram a eliminação de pintinhos machos. Nos Estados Unidos, Austrália e América Latina, a adoção também avança, impulsionada por legislações e pela pressão de consumidores e redes varejistas. Dados apresentados no encontro mostram que cerca de 110 milhões das 393 milhões de galinhas poedeiras da União Europeia já são provenientes da sexagem in ovo.
Aceitação dos consumidores brasileiros
A primeira pesquisa nacional sobre o tema, realizada pela YouGov a pedido da Innovate Animal Ag, revelou um cenário promissor:
Os dados reforçam que o desafio não é convencer os consumidores, mas ampliar o conhecimento sobre uma prática ainda pouco conhecida.
Tecnologias já disponíveis
Empresas internacionais apresentaram soluções em escala industrial. A alemã Orbem mostrou seu sistema de ressonância magnética associado à inteligência artificial, capaz de identificar o sexo dos embriões sem perfurar a casca, com taxa de erro inferior a 1%. Já a startup Omegga desenvolve um sistema baseado em imagens espectroscópicas captadas dentro das incubadoras, também utilizando inteligência artificial.
Competitividade e mercado
Participantes destacaram que grandes compradores e redes varejistas já começam a exigir critérios de bem-estar animal em suas políticas de abastecimento. “Este encontro representa um marco para o Brasil ao reunir, pela primeira vez, governo, setor produtivo, empresas de tecnologia, financiadores e sociedade civil para discutir os caminhos da implementação da sexagem in ovo. O diálogo demonstrou que há interesse e disposição para avançar de forma colaborativa, fortalecendo a inovação, a competitividade da avicultura e o bem-estar animal”, afirmou Liane Soares, diretora da LICA Consultoria e Ação.
Políticas públicas e financiamento
Apesar do consenso sobre o potencial da tecnologia, os debates mostraram que o principal obstáculo está nos mecanismos de financiamento. Representantes do setor defenderam incentivos fiscais, apoio à importação de equipamentos e políticas públicas para reduzir o impacto inicial dos investimentos. O Ministério da Agricultura reconheceu que ainda não existe uma política nacional sobre o tema e que a construção de instrumentos depende das demandas da sociedade e do setor produtivo.
Consenso final
O encontro concluiu que a eliminação de pintinhos machos é uma prática bárbara que precisa ser abolida. A sexagem in ovo desponta como solução ética e economicamente viável. “O desafio agora não é provar que essa transformação é possível, mas construir as condições para que ela aconteça na velocidade que o Brasil precisa. Toda inovação passa por um momento em que parece cara ou distante. Depois, ela se torna o novo padrão”, comentou Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)