Segunda-feira, 20 de julho de 2026

Brasilianista diz que Trump pode interferir na eleição brasileira para favorecer Flávio Bolsonaro e gerar caos

O brasilianista Anthony W. Pereira, 67, voltou ao Brasil para mais uma das cerca de 50 viagens que já fez ao país. Professor de ciência política na universidade Tulane (EUA), veio participar de um evento do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) sobre as crises democráticas enfrentadas aqui e nos Estados Unidos —o autoritarismo é uma das linhas de pesquisa às quais se dedicou ao longo da carreira.

Pereira está certo de que a eleição presidencial de 2026 gira em torno de um ponto: a possibilidade de um novo retrocesso com a eventual aprovação da anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, caso o presidente Lula (PT) saia derrotado do pleito.

O professor afirma que, se o senador Flávio Bolsonaro (PL) vencer as eleições, seu governo pode ser motivado por vingança. Pereira lembra o que aconteceu no início do segundo mandato do presidente americano Donald Trump, com a promoção de uma “caça às bruxas” a funcionários estatais que considerava pouco leais a ele.

Ele avalia que os Estados Unidos, para onde Flávio já foi ao menos seis vezes desde o início do ano, podem interferir diretamente no pleito brasileiro, contribuindo para um cenário de caos a partir da descredibilização do sistema eleitoral, no caso de uma eventual derrota do filho de Jair Bolsonaro (PL).

“Se esse tipo de crise for prolongada sem um resultado concreto, pode gerar incentivo para intervenção das Forças Armadas ou talvez pressão para refazer eleições, algo sem precedentes nas últimas décadas da democracia brasileira.”

Confira trechos da entrevista:

Em 2022, numa entrevista o sr. disse que seria mais difícil conter o ímpeto autoritário de Bolsonaro num eventual segundo mandato. O que está em jogo em 2026?

A possibilidade de um retrocesso, que já vimos nos Estados Unidos. Se, por exemplo, for concedida anistia para pessoas envolvidas nos ataques em Brasília e também no golpe. Em termos de responsabilização, seria um passo atrás e poderia afetar outras áreas do Estado de Direito.

Flávio Bolsonaro tem condições de se apresentar como um candidato moderado?
Superficialmente ele tem algumas características que talvez induzam o eleitor a pensar que ele é diferente do pai. Ele não foi militar, não tem o estilo truculento, fala num tom um pouco mais moderado. Mas acho que a família Bolsonaro tem muitas limitações, o pai ainda é muito forte em termos de construir a hierarquia. Pode ser que o eleitor que vote pensando numa diferença muito grande do pai vá se decepcionar.

Outra dúvida que eu tenho é se ele teria interesse em chamar tantos militares ao governo, porque Jair Bolsonaro como ex-militar e alguém que sempre aproximou os quartéis, gostava dessa relação de proximidade. Não sei se Flávio tem afinidades nesse aspecto.

O sr. acredita, então, que Trump poderia interferir diretamente no processo eleitoral brasileiro?

Sim. Ele não tem muita capacidade de concentração, então ele talvez vá para outro lugar, esqueça, mas acho que ele demonstra interesse.

Por exemplo, na última eleição de Honduras, ele falou que não iria reconhecer o candidato que, no final do processo, acabou perdendo a eleição.

Na eleição de 2022 houve uma tentativa por parte das autoridades brasileiras de convencer o governo Biden. O juiz [Edson] Fachin, do STF, foi para Washington e explicou o sistema. E até antes da eleição o Departamento de Estado americano emitiu um comentário dizendo que confiava no voto eletrônico. Duvido que isso vá acontecer neste ano.

A eleição húngara pode ser uma referência do quanto Trump pode estar disposto a ajudar? Quando as pesquisas começaram a mostrar que Orbán perderia, ele mandou o J.D. Vance para lá.

É engraçado que ele mandou Vance e ele próprio não foi. Saiu pela culatra essa tentativa. Em vez de convencer os húngaros, o J.D. Vance provavelmente levou muita gente a votar contra Orbán.

Talvez [uma interferência] crie caos ou dúvidas sobre o resultado da eleição, mas pode gerar resistência. Com informações da Folha de S. Paulo.

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