Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de agosto de 2026
Às vésperas do início da campanha, os principais candidatos à Presidência e a governos estaduais têm se ausentado de debates e sabatinas, em movimento que marca uma mudança na estratégia eleitoral. Ao mesmo tempo que evitam o confronto direto, passaram a ser recorrentes as participações em podcasts e outros programas voltados às redes sociais em que enfrentam cenários mais amigáveis.
No domingo (9), três líderes das pesquisas nos Estados faltaram ao encontro da Band: Eduardo Paes (PSD), no Rio; Sergio Moro (PL), no Paraná; e Daniel Vilela (MDB), em Goiás. Na segunda (10), o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) não compareceu à sabatina da GloboNews, seguindo o que fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na semana passada. Os dois têm ampla vantagem sobre os demais candidatos ao Planalto.
Efeito Marçal
Antes incomum, a prática reflete a percepção nas campanhas de que, em tempos de redes sociais e outras formas de comunicação, o mais conveniente para manter o controle é evitar ambientes que podem ser críticos, observa o cientista político Hilton Fernandes, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP. Assim, o debate público acaba empobrecido.
“Os candidatos podem focar em ambientes mais favoráveis, com debatedores que não vão tocar em temas delicados ou negativos para os candidatos”, afirma o pesquisador. “É justamente a facilidade de divulgar conteúdos próprios na internet que deixa muitos candidatos à vontade para evitar debates, sabatinas e outras situações em que não têm o controle.”
Enquanto coloca em xeque a participação no primeiro debate televisivo, o da Band, Lula, por exemplo, deu entrevista recentemente ao podcast “Meteoro Brasil”. Flávio, por sua vez, foi ao “Market Makers”. O embate entre os presidenciáveis na emissora está agendado para o dia 23, mas pode acabar esvaziado.
No passado, diz Fernandes, não participar de encontros criava mais efeitos negativos, enquanto hoje a produção massiva de conteúdo digital acaba compensando a ausência. Ele pontua ainda como a mudança no perfil de candidatos impactou a dinâmica. Políticos como Pablo Marçal, cuja postura na eleição paulistana de 2024 foi paradigmática, suscitaram novos riscos aos demais concorrentes.
“Com o aparecimento de candidatos extremistas que se aproveitam da internet para se apoiar em desinformação, agora há o risco de confronto entre quem pretende fazer um debate sério e outros que usam o espaço para oportunismo, como ocorreu nas últimas eleições municipais”, avalia. “Neste cenário, os debates ficam ainda menos interessantes para quem quer tratar de temas relevantes para os eleitores.”
Professor de marketing político, Marcelo Vitorino pondera que não existe uma explicação única para todas as ausências. É comum, contudo, que cenários com muitas candidaturas fragmentadas e um líder com ampla vantagem sejam mais propícios a faltas.
“Se um debate tem 120 minutos, eu, se sou líder das pesquisas, calculo que vou ter uns 15 de fala, enquanto os demais vão passar os outros 105 me atacando. Vou virar vidraça. Esse candidato vai ser atacado de qualquer jeito, mas é diferente quando está presencialmente, com sua imagem lá”, aponta. “Sem dúvida é horrível não ter o debate para produzir cortes nas redes, mas a discussão interna é se perde mais não indo ou indo e sendo ‘espancado’ publicamente.”
Os encontros televisivos, diz Vitorino, ainda são essenciais aos candidatos em eleições mais apertadas, nas quais a margem para a vitória está reduzida. Por isso, ganham especial protagonismo em segundos turnos. Ao mencionar os casos do domingo passado, vê o de Vilela, em Goiás, como o mais arriscado, dado que a vantagem dele nas pesquisas é menor que a de Paes e Moro.
Marqueteiro que hoje prepara a campanha presidencial de Ronaldo Caiado (PSD) e as estaduais de Mateus Simões (PSD), em Minas Gerais, e Douglas Ruas (PL), no Rio, Paulo Vasconcelos divide a avaliação sobre participar ou não de um debate em dois níveis: o “filosófico e democrático” e o “do marqueteiro”.
“O nosso mundo, o dos marqueteiros, está pensando em efeitos imediatos, de perda de votos. Às vezes, faltar não rende um efeito negativo, mas a longo prazo, para o currículo e para a democracia, é algo muito ruim”, diz.
Se um candidato é pouco conhecido e não representa o alvo principal dos adversários, observa Vasconcelos, participar faz parte do processo de se apresentar ao eleitorado:
“O Douglas, por exemplo, foi ao debate da Band para dizer ‘estou aqui’ ao eleitorado de direita, seja no ao vivo ou por meio dos cortes.” (Com informações do jornal O Globo)