Quinta-feira, 18 de junho de 2026

Cannabis pode elevar testosterona e outros hormônios em homens jovens

O consumo de cannabis pode estar ligado a alterações específicas na produção de hormônios masculinos, de acordo com um estudo realizado com jovens adultos na Suíça. O trabalho identificou níveis mais elevados de testosterona, androstenediona e di-hidrotestosterona (DHT) em usuários da substância, quando comparados a não usuários.

Os pesquisadores da Universidade de Genebra (UNIGE) analisaram amostras de sangue de 47 consumidores de cannabis e 47 homens que não utilizavam a droga. Todos tinham entre 18 e 23 anos. O estudo utilizou uma técnica avançada capaz de identificar dezenas de hormônios esteroides simultaneamente e revelou um padrão consistente de aumento dos chamados andrógenos gonadais – hormônios produzidos principalmente pelos testículos.

Os pesquisadores, porém, não descartam a possibilidade de causalidade reversa – que homens com níveis naturalmente mais altos de testosterona sejam mais propensos a usar cannabis.

Segundo os autores, os achados sugerem uma possível interferência dos fitocanabinoides na função endócrina masculina, especialmente nos processos hormonais ligados ao sistema reprodutivo. Mas o estudo não permite concluir que a cannabis seja a causa direta dessas alterações.

Um dos autores do estudo, Serge Rudaz, explicou ao g1 que os resultados apoiam duas hipóteses principais: ou a cannabis afeta diretamente a produção de esteroides testiculares por meio dos receptores canabinoides presentes nos testículos, ou altera a regulação hormonal ao longo do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.

O pesquisador alertou que níveis mais altos de testosterona não devem ser interpretados como evidência de que a cannabis seja benéfica para a saúde ou para a fertilidade masculina.

O estudo foi publicado na revista Communications Medicine e identifica uma associação. Somente estudos futuros poderão estabelecer a causalidade de forma definitiva.

Segundo o autor, não há um benefício dessas alterações hormonais para a saúde e as consequências delas a longo prazo permanecem desconhecidas.

“Devemos destacar esse resultado como uma possível alteração endócrina, de forma semelhante a como falamos sobre desreguladores endócrinos”, diz Rudaz.

Os efeitos da cannabis sobre o sistema hormonal e a fertilidade masculina ainda geram controvérsias na comunidade científica. Estudos anteriores sugeriram que a substância poderia reduzir a contagem, a concentração e a motilidade dos espermatozoides.

Testosterona, androstenediona e DHT aumentaram

Entre os sete principais hormônios avaliados de forma quantitativa, três apresentaram aumento significativo entre os usuários de cannabis: a androstenediona, a testosterona e di-hidrotestosterona (DHT).

A diferença mais expressiva foi observada na testosterona, que apresentou concentração média 3,5 nmol/L maior entre os consumidores da substância. Isso equivale a um aumento de cerca de 23% na produção do hormônio.

Os pesquisadores também identificaram níveis mais altos de di-hidrotestosterona (DHT), considerada uma das formas mais potentes dos hormônios androgênicos. A substância possui capacidade de ligação ao receptor androgênico aproximadamente duas vezes maior do que a testosterona.

Com isso, os três principais andrógenos biologicamente ativos produzidos pelas gônadas masculinas – androstenediona, testosterona e DHT – apareceram elevados nos participantes positivos para THC, principal composto psicoativo da cannabis. Entenda melhor as funções desses hormônios:

Testosterona: nos homens, este é o principal hormônio sexual masculino, produzido principalmente pelos testículos. Ela é responsável pelo desenvolvimento das características masculinas durante a puberdade, como o aumento da massa muscular, o crescimento dos pelos corporais e faciais, o engrossamento da voz e o amadurecimento dos órgãos reprodutivos. Na vida adulta, a testosterona também desempenha papel importante na produção de espermatozoides, na libido, na saúde óssea, na força muscular e na manutenção de diversas funções metabólicas e reprodutivas.

Di-hidrotestosterona (DHT): nos homens, o DHT é um hormônio derivado da testosterona e considerado um dos andrógenos mais potentes do organismo. Produzido pela ação da enzima 5-alfa-redutase, ele desempenha papel fundamental no desenvolvimento dos órgãos genitais masculinos e das características sexuais durante a puberdade. Na vida adulta, ajuda a regular funções da próstata, da pele e dos folículos capilares. No entanto, níveis elevados ou maior sensibilidade à DHT podem estar associados à calvície androgenética e ao aumento benigno da próstata.

Androstenediona: nos homens, este é um hormônio produzido principalmente pelos testículos e pelas glândulas suprarrenais que funciona como precursor da testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Embora tenha atividade androgênica relativamente fraca, ela contribui para a produção de testosterona e de outros hormônios envolvidos no desenvolvimento e na manutenção das características masculinas, como massa muscular, pelos corporais, função sexual e fertilidade. Seus níveis podem ser avaliados para investigar alterações hormonais e distúrbios das glândulas suprarrenais ou dos testículos.

Efeito parece restrito aos testículos

Um dos aspectos que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o fato de que os hormônios androgênicos produzidos pelas glândulas suprarrenais não apresentaram alterações relevantes.

Para os autores, o estudo sugere que a associação observada está concentrada na produção hormonal dos testículos e não em todo o sistema endócrino masculino.

 

 

 

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