Sábado, 08 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de agosto de 2026
A diretoria da Voepass orientou que panes nos aviões da empresa fossem omitidas e só reportadas quando a aeronave retornasse à base principal da empresa em Ribeirão Preto (SP).
A orientação era passada em um grupo de WhatsApp que, entre outros, contava com José Luiz Felício Filho, presidente da empresa, com o gerente do CCO (Centro de Controle Operacional), Willian Agatz, com o diretor técnico, Eric Consoli, e com o chefe do CCO, Raphael Limongi de Figueiredo.
A informação consta no relatório apresentado pela Polícia Federal nesta quinta-feira (6), que indiciou 16 pessoas pela queda de um avião da companhia, em 9 de agosto de 2024, que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo.
A existência desse grupo, segundo o documento da PF, consta em depoimento do despachante John Major Viana. Tanto ele quanto as quatro pessoas citadas estão entre os indiciados pela PF.
“Ademais, o mesmo depoente relatou a existência de um grupo de aplicativo de mensagens [WhatsApp] que reunia, além do Diretor-Presidente José Felício, o próprio William Agatz, Eric Consoli e Raphael Limongi, no qual a diretoria questionava reiteradamente a equipe operacional se seria possível ‘segurar’ a liberação e sugeria que a irregularidade fosse reportada apenas na base principal”, diz o texto.
Segundo a Polícia Federal, Felício tinha pleno conhecimento dos problemas técnicos graves da frota.
O documento cita que em depoimento dado na última terça-feira (4), o executivo confirmou ter ciência sobre a cultura de omissão da empresa de evitar o registro de falhas no livro de bordo, “relatando ter sido pessoalmente alertado, ao longo dos anos, por diretores da própria Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] sobre esse padrão de conduta dos pilotos”.
“O que afasta qualquer alegação de desconhecimento superveniente do risco”, diz a PF no relatório sobre a investigação.
Felício, afirma o texto, também admitiu que a implantação de um sistema automatizado de monitoramento de dados de voo capaz de identificar a recorrência da falha no sistema antigelo —apontado por ele mesmo como estando “nos planos” da companhia— não havia sido, de fato, implementada até a data do acidente.
“Declarou, ainda, ter sido piloto da própria empresa, com experiência pessoal na operação de aeronaves regionais e conhecimento direto da suscetibilidade desse tipo de aeronave a condições de gelo, o que afasta a tese de mero investidor alheio aos aspectos técnicos da operação”, afirma o relatório.
A PF diz, conforme depoimento, que o diretor-presidente demonstrou ter ciência de que a estrutura formal de segurança operacional da empresa funcionava apartada do núcleo apontado por testemunhas como responsável pela pressão contra o reporte de falhas.
“Também não passou despercebido que o próprio Felício, ao ser instado a individualizar a conduta de cada envolvido, reconheceu expressamente que ‘a aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota’.”
Questionada sobre o grupo de WhatsApp e sobre o depoimento de seu presidente, a Voepass mandou a mesma nota enviada na quinta-feira, após a divulgação do relatório.
A companhia aérea disse que “a segurança operacional sempre foi sua prioridade”. “Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações.”
O texto afirmou que a tripulação do voo 2283 era “composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5.000 horas de voo”. A empresa disse ainda que colabora desde o início das investigações e se solidariza com as famílias das vítimas.
“Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional”, disse trecho da nota.
“A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.”
A Voepass disse que ainda não há definição sobre a defesa individual dos indiciados.
Conforme a investigação da Polícia Federal, a tragédia foi resultado de uma sucessão de falhas operacionais e de manutenção, e não de um evento isolado.
A investigação conclui que a aeronave foi despachada para uma rota com previsão de condições de formação de gelo. O modelo ATR 72-500 não é certificado para operar nessas condições e apresentava falhas conhecidas no sistema de degelo, o que deveria impedir seu despacho.
Peritos apontam ainda que a empresa mantinha uma cultura organizacional de omissão de registros de panes e de priorização da disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional.
Segundo eles, isso permitiu que problemas recorrentes persistissem até culminarem na perda de controle da aeronave após o acúmulo de gelo nas superfícies aerodinâmicas. Com informações da Folha de S. Paulo.